Um serviço pode armazenar todos os seus dados dentro do Brasil e continuar profundamente dependente de tecnologia estrangeira. O servidor pode estar em território nacional, enquanto processadores, sistema operacional, plataforma de nuvem, licenças, atualizações de segurança, ferramentas de autenticação e conhecimento técnico decisivo continuam ligados a fornecedores externos. Soberania digital começa justamente nessa diferença entre possuir fisicamente um dado e preservar capacidade de decidir, operar e recuperar a infraestrutura que o mantém disponível.

Por Portal Infoalfa

Resumo Infoalfa

O Brasil possui desde 2025 uma nova Estratégia Nacional de Cibersegurança, a E-Ciber, que inclui soberania nacional, resiliência de serviços essenciais, desenvolvimento tecnológico e capacitação entre seus eixos.

Em 2026, a Estratégia Nacional de Governo Digital também foi revisada, enquanto o governo iniciou estudos para uma Nuvem Brasileira voltada a ampliar controle nacional sobre infraestrutura de computação em nuvem.

Soberania digital não exige fabricar todo chip, software ou servidor dentro do país. Exige evitar dependências nas quais uma decisão externa, uma falha de fornecedor ou a impossibilidade de migração seja capaz de interromper serviços essenciais sem alternativa viável.

O Brasil controla seus dados, mas controla a infraestrutura que os mantém disponíveis?

A expressão soberania digital costuma ser reduzida à localização dos dados. A pergunta seria simples: o banco de dados está hospedado no Brasil ou fora dele? Isso importa, principalmente por questões jurídicas, regulatórias, de latência e governança. Mas responde apenas a uma parte do problema.

Imagine um serviço público hipotético que processe informações de milhões de cidadãos num data center instalado em território brasileiro. Os dados estão fisicamente no país. A infraestrutura, porém, utiliza processadores importados, um hipervisor desenvolvido no exterior, banco de dados proprietário, serviços de autenticação de outro fornecedor, componentes de cibersegurança sujeitos a licenciamento e uma plataforma cuja manutenção depende de atualizações produzidas fora do Brasil.

Se uma dessas camadas deixar de funcionar, a localização física do banco de dados não garante continuidade.

É por isso que localização de dados, soberania digital, segurança cibernética e autonomia tecnológica são conceitos relacionados, mas diferentes. Segurança procura reduzir riscos de acesso indevido, interrupção, adulteração e perda. Proteção de dados estabelece regras sobre tratamento e direitos dos titulares. Autonomia tecnológica trata da capacidade de desenvolver, operar ou substituir tecnologias. Soberania digital é mais ampla e envolve capacidade de decisão sobre infraestruturas e serviços importantes para o funcionamento do país.

DADO NO BRASIL NÃO SIGNIFICA TECNOLOGIA SOB CONTROLE BRASILEIRO

Um banco de dados pode estar localizado em São Paulo e depender de software, hardware, atualizações, licenças e serviços de suporte controlados por empresas estrangeiras. A localização reduz algumas dependências, mas não elimina todas. O ponto decisivo é saber quem consegue operar, alterar, manter, substituir e recuperar cada camada da infraestrutura.

A computação em nuvem deixa essa diferença particularmente clara. Grandes provedores oferecem escala, segurança, disponibilidade e uma quantidade de serviços que seria difícil reproduzir individualmente. Para muitas organizações, contratar esses serviços é economicamente racional. O problema aparece quando a arquitetura utiliza funções tão específicas daquele fornecedor que migrar os sistemas se torna tecnicamente complexo, demorado ou proibitivamente caro.

Esse fenômeno é conhecido como vendor lock-in, ou aprisionamento ao fornecedor. O próprio Tribunal de Contas da União já tratou do risco em contratações públicas e destacou a importância de avaliar portabilidade e interoperabilidade antes da contratação de serviços em nuvem.

A dependência não precisa ser total para ser relevante. Uma empresa pode possuir cópias dos seus dados e descobrir que reconstruir a aplicação em outro ambiente levaria meses. Um órgão pode ter backup, mas depender do mesmo fornecedor para restaurá-lo. Uma instituição pode utilizar padrões abertos na camada de dados e permanecer presa a ferramentas proprietárias na autenticação, no monitoramento ou na automação.

Semicondutores formam outra camada. Praticamente toda infraestrutura digital depende de processadores, memórias, controladores de rede e outros componentes produzidos por cadeias globais extremamente especializadas. Nenhum país relevante fabrica sozinho todas as etapas. Projeto de chips, equipamentos de fabricação, materiais, litografia, encapsulamento e produção estão distribuídos internacionalmente.

O Brasil possui iniciativas para fortalecer sua participação nessa cadeia. O Programa Brasil Semicondutores, instituído pela Lei nº 14.968/2024 e regulamentado dentro da política industrial, procura ampliar produção, pesquisa e desenvolvimento no setor. Isso não transforma o país em produtor autossuficiente de semicondutores avançados. O objetivo mais realista é aumentar capacidades estratégicas em determinados segmentos e reduzir vulnerabilidades específicas.

Conectividade internacional cria uma dependência diferente. A internet brasileira se conecta ao restante do mundo por cabos submarinos, redes de operadoras, pontos de troca de tráfego, sistemas de nomes, serviços de nuvem e inúmeras relações de interconexão. Parte relevante dessa infraestrutura está no Brasil e o país possui um ecossistema robusto de governança da internet, incluindo CGI.br, NIC.br e grandes pontos de troca de tráfego. Isso não significa que aplicações brasileiras deixem de depender de serviços globais.

Certificados digitais, bibliotecas de software, plataformas móveis, sistemas operacionais e serviços de identidade completam a cadeia. Uma aplicação pode ter código próprio e utilizar dezenas ou centenas de componentes desenvolvidos externamente. A pergunta útil não é quantos deles são estrangeiros. É quais se tornaram pontos únicos de falha.

DEPENDÊNCIA ACEITÁVEL X DEPENDÊNCIA CRÍTICA

Dependência aceitável: o fornecedor externo oferece vantagem de custo ou capacidade, mas existe plano realista de substituição, dados exportáveis, documentação, competências internas e alternativas compatíveis.

Dependência crítica: interromper o fornecedor paralisa uma função essencial e a organização não consegue migrar, operar, restaurar ou substituir o serviço em prazo compatível com sua importância.

O que a política brasileira de cibersegurança pretende mudar

O Brasil não parte de um vazio institucional. O Decreto nº 12.573, de 4 de agosto de 2025, instituiu a atual Estratégia Nacional de Cibersegurança, a E-Ciber. O documento organiza a política em quatro grandes eixos, incluindo proteção do cidadão, resiliência de serviços essenciais e infraestruturas críticas, cooperação entre instituições e soberania nacional e governança.

A estratégia reconhece que cibersegurança envolve hardware, software, redes, aplicações, serviços e dados. Também associa soberania à pesquisa, ao desenvolvimento tecnológico, à formação profissional e à capacidade de avaliar a maturidade nacional em segurança digital.

A E-Ciber, porém, é uma estratégia. Transformar seus princípios em capacidade operacional depende de iniciativas, responsáveis, orçamento, cronogramas, padrões e execução. O Plano Nacional de Cibersegurança, o P-Ciber, foi desenhado justamente para detalhar essa implementação.

Em 2026, o GSI e o Comitê Nacional de Cibersegurança passaram a publicar ações e iniciativas vinculadas ao plano. Há medidas sobre vulnerabilidades, contingência, maturidade, proteção de serviços essenciais, educação e combate a golpes digitais. O fato de iniciativas existirem é diferente de demonstrar que todos os objetivos nacionais já foram atingidos. Estratégia, implementação e resultado precisam ser acompanhados separadamente.

Outra peça é a Estratégia Nacional de Governo Digital. A versão para 2024 a 2027 foi revisada em 2026 pela Portaria SGD/MGI nº 5.395. Entre os objetivos estão ampliar a resiliência e a maturidade das estruturas tecnológicas governamentais e desenvolver infraestrutura digital moderna, segura, escalável e baseada em padrões capazes de favorecer integração e interoperabilidade.

Em paralelo, o governo iniciou em 2026 o projeto chamado Nuvem Brasileira. A iniciativa reúne MGI, ABDI, Serpro e BNDES e tem como objetivo declarado ampliar a soberania do Estado sobre computação em nuvem, mantendo dados e controle da infraestrutura em mãos nacionais. Em outubro de 2026, o projeto ainda se encontrava em fase de estudos, diagnóstico e modelagem, e não deveria ser confundido com uma infraestrutura nacional plenamente implementada.

Esse estágio é relevante justamente porque mostra a distância entre decisão estratégica e capacidade operacional. Criar uma nuvem não significa apenas comprar servidores. É necessário desenvolver plataforma, segurança, automação, conectividade, redundância, suporte, modelos de contratação, padrões de interoperabilidade e equipes qualificadas. Também é preciso atingir escala suficiente para que o serviço seja economicamente competitivo.

Proteção de dados adiciona outra dimensão. A LGPD não determina que todos os dados pessoais brasileiros permaneçam fisicamente dentro do território nacional. A Resolução CD/ANPD nº 19/2024 regulamenta mecanismos para transferências internacionais, incluindo cláusulas-padrão e outras salvaguardas.

Isso demonstra por que soberania digital não pode ser reduzida à proibição de fluxos internacionais de dados. Uma economia integrada precisa trocar informações internacionalmente. A questão é fazer isso com regras, garantias, transparência e capacidade de fiscalização.

Capacidade humana também pode se tornar dependência crítica. Uma organização pode possuir código, servidores e documentação e ainda ficar paralisada se apenas uma consultoria externa souber operar determinado sistema. Soberania tecnológica também passa por formar equipes capazes de compreender aquilo que contratam.

Esse ponto costuma receber menos atenção que a origem do hardware, mas é decisivo. Comprar tecnologia não transfere automaticamente conhecimento. Quanto mais crítica a infraestrutura, maior a importância de manter competências internas suficientes para auditar, operar durante contingências e avaliar alternativas.

Como reduzir dependências sem reconstruir toda a internet dentro do país

Autossuficiência completa seria impraticável e provavelmente contraproducente. A economia digital é baseada em cadeias internacionais justamente porque chips, telecomunicações, software e pesquisa se especializaram de forma global. Reduzir dependência crítica não exige romper essas cadeias. Exige criar capacidade para continuar funcionando quando uma delas falha.

Interoperabilidade é uma das ferramentas mais importantes. Sistemas baseados em interfaces documentadas, formatos exportáveis e padrões amplamente implementados tendem a ser mais fáceis de integrar ou substituir. Isso não elimina custos de migração, mas reduz a chance de que todo o serviço fique aprisionado a uma tecnologia específica.

Multicloud pode ajudar em alguns casos, mas não é uma solução automática. Manter a mesma aplicação simultaneamente em diferentes provedores pode aumentar custos e complexidade de forma significativa. Além disso, se os dois ambientes dependem da mesma camada de software, do mesmo sistema de identidade ou do mesmo fornecedor de segurança, a redundância pode ser apenas aparente.

Backup independente é mais básico e, muitas vezes, mais importante. Uma cópia mantida no mesmo ambiente e submetida às mesmas credenciais não protege contra todos os cenários. Serviços críticos precisam avaliar se conseguem restaurar dados e sistemas mesmo quando o provedor principal ou a conta administrativa está indisponível.

Contratos também funcionam como infraestrutura. Cláusulas sobre portabilidade, formato dos dados, continuidade, suporte, encerramento, auditoria, acesso a logs e assistência de migração podem determinar se trocar de fornecedor é uma possibilidade real ou uma promessa teórica.

Desenvolver fornecedores nacionais pode aumentar diversidade, criar conhecimento local e reduzir determinadas exposições. Isso não significa que um produto deva ser escolhido apenas por ser brasileiro. Segurança, escala, desempenho, custo e capacidade de atualização continuam necessários. Soberania não é licença para utilizar tecnologia inferior em sistemas críticos.

O mesmo raciocínio vale para software aberto. Código aberto pode facilitar auditoria, portabilidade e domínio técnico, mas não elimina necessidade de manutenção, segurança ou suporte. Um projeto abandonado pode ser tão problemático quanto um produto proprietário fechado.

Serviços públicos e infraestruturas críticas precisam trabalhar com análise de impacto. Quanto tempo uma função pode ficar indisponível? Quais sistemas precisam continuar operando? Existe procedimento manual? Quem possui as chaves e credenciais? Onde estão os backups? Quanto demoraria reconstruir o serviço fora do fornecedor atual?

Essas perguntas transformam soberania digital de conceito político em engenharia de continuidade.

A mesma lógica vale para empresas. Um negócio brasileiro que depende de uma única plataforma estrangeira para vendas, pagamentos, arquivos, autenticação e comunicação pode estar mais exposto que outro igualmente internacionalizado, mas distribuído entre sistemas substituíveis e com dados exportáveis.

Dependência internacional não é necessariamente vulnerabilidade. Dependência internacional sem alternativa pode ser.

LEITURA INFOALFA

A soberania digital mais útil não é medir quantos componentes de uma infraestrutura possuem bandeira brasileira. É descobrir quais decisões essenciais o país, o governo ou uma empresa ainda consegue tomar quando um fornecedor deixa de colaborar, uma plataforma falha ou uma tecnologia precisa ser substituída. Ter alternativas reais é uma forma mais concreta de soberania do que simplesmente localizar servidores dentro da fronteira.

Fontes consultadas