A modernização da rede elétrica não acontece apenas com novos cabos, transformadores e subestações. Existe outra infraestrutura crescendo em paralelo: uma rede de comunicação que permite a medidores, sensores, religadores e outros equipamentos trocar informações com a concessionária. Tecnologias como Wi-SUN foram criadas justamente para conectar milhares de dispositivos espalhados por cidades e áreas rurais. Quando essa camada digital entra na distribuição, a rede passa a transportar não apenas eletricidade, mas também dados sobre o próprio funcionamento.
Smart grid é uma rede elétrica que adiciona medição, comunicação, automação e software à infraestrutura convencional.
Wi-SUN FAN utiliza comunicação sem fio baseada na família IEEE 802.15.4-SUN, IPv6 e arquitetura mesh. Em julho de 2026, sua especificação foi ratificada como ISO/IEC/IEEE 32857:2026.
No Brasil, a digitalização também avança pela discussão regulatória sobre medição inteligente. A questão não é apenas trocar medidores antigos por telas eletrônicas, mas construir uma infraestrutura capaz de operar, proteger e administrar milhões de dispositivos conectados durante muitos anos.
A rede elétrica agora também precisa transportar informação
Durante grande parte da história da distribuição, a concessionária sabia relativamente pouco sobre o que acontecia depois do transformador que atendia uma rua ou um conjunto de consumidores.
A leitura do consumo podia acontecer uma vez por mês. Muitas falhas eram conhecidas porque o cliente telefonava. Informações detalhadas sobre tensão, interrupção e comportamento da baixa tensão eram limitadas.
Uma rede inteligente muda essa relação.
Medidores conectados podem enviar leituras automaticamente. Sensores podem informar condições operacionais. Religadores e outros equipamentos podem ser monitorados ou comandados remotamente.
A rede física continua existindo. O que aparece por cima dela é uma segunda camada formada por telecomunicações, software e dados.
Medidor eletrônico não é necessariamente medidor inteligente
Um medidor pode ser eletrônico e ainda funcionar praticamente como o antigo equipamento eletromecânico.
Ele registra consumo de maneira digital, mas alguém continua precisando ir até o local para ler as informações.
Um smart meter acrescenta comunicação.
Isso permite que a leitura chegue remotamente à concessionária e, dependendo da arquitetura, que outras informações também sejam enviadas ou recebidas.
Quando esses equipamentos fazem parte de um sistema completo de comunicação e gestão, entra o conceito de AMI, sigla para Advanced Metering Infrastructure.
AMI não é apenas o medidor.
Inclui dispositivos, rede de comunicação, sistemas de coleta, armazenamento, integração com faturamento, segurança e outras plataformas da distribuidora.
Como milhares de medidores conseguem conversar
Existem várias formas de conectar equipamentos elétricos.
Uma delas é utilizar rede celular.
Outra utiliza comunicação pela própria fiação elétrica, conhecida como PLC.
Fibra pode ser empregada em pontos específicos.
Também existem redes de rádio dedicadas.
Wi-SUN pertence a esse último grupo.
A arquitetura foi desenvolvida para redes de campo com grande quantidade de dispositivos e possibilidade de cobertura extensa.
Em vez de exigir que cada equipamento consiga falar diretamente com uma única torre distante, a rede pode utilizar outros nós para encaminhar os pacotes.
Uma rede mesh cria vários caminhos possíveis
Imagine centenas de medidores espalhados por um bairro.
O equipamento instalado na última rua não precisa necessariamente alcançar diretamente o concentrador central.
Ele pode enviar os dados para outro dispositivo dentro do alcance.
Esse dispositivo encaminha a informação para o seguinte.
O processo continua até o pacote alcançar o destino.
Isso é uma rede mesh.
Se uma rota fica indisponível, o sistema pode encontrar outra dependendo da configuração e da topologia existente.
Essa redundância ajuda em ambientes onde prédios, vegetação, relevo e distâncias dificultam comunicação direta.
Onde entra o Wi-SUN
Wi-SUN significa Wireless Smart Utility Network.
A tecnologia utiliza padrões abertos e foi desenhada principalmente para aplicações de utilities e cidades inteligentes.
O Wi-SUN FAN, de Field Area Network, trabalha sobre tecnologias da família IEEE 802.15.4-SUN e utiliza IPv6.
Isso permite que os dispositivos participem de uma infraestrutura baseada em protocolos de internet, em vez de depender exclusivamente de formatos proprietários fechados.
Em julho de 2026, a Wi-SUN Alliance anunciou que a especificação FAN havia sido formalmente ratificada como ISO/IEC/IEEE 32857:2026.
A padronização não torna Wi-SUN automaticamente a melhor solução para qualquer concessionária.
Ela fortalece interoperabilidade e reduz a dependência de um único fornecedor em projetos que optem por essa arquitetura.
250 mil nós são um caso empresarial, não uma estatística do setor
Em 1º de outubro de 2026, a MMB Networks anunciou ter ultrapassado 250 mil nós Wi-SUN implantados em projetos nas Américas.
A companhia também afirma atuar em projetos envolvendo 15 concessionárias e fornecedores de produtos.
Esses números foram divulgados pela própria empresa por meio de comunicado distribuído pela PR Newswire.
São úteis como evidência de implantação comercial real, mas não devem ser tratados como levantamento independente do mercado.
Também não significam que 250 mil medidores inteligentes estejam necessariamente instalados no Brasil.
Um nó pode estar integrado a diferentes tipos de equipamento e os projetos estão distribuídos pelas Américas.
Wi-SUN não compete apenas com outra rede mesh
Concessionárias podem escolher diferentes tecnologias conforme densidade, distância, topografia, custo e infraestrutura disponível.
Em área urbana densa, uma rede mesh pode aproveitar a grande quantidade de equipamentos próximos para criar múltiplas rotas.
Em região rural, as distâncias podem exigir projeto completamente diferente.
Rede celular pode ser interessante quando já existe cobertura robusta e a concessionária prefere contratar conectividade de uma operadora.
NB-IoT e LTE-M também foram desenvolvidos para conectar dispositivos com baixo consumo e volumes reduzidos de dados.
PLC utiliza os próprios condutores da rede elétrica, mas seu desempenho depende das características da instalação e dos ruídos presentes.
Fibra oferece enorme capacidade e confiabilidade, mas pode ser cara para chegar a milhões de pontos finais.
A resposta raramente é uma tecnologia única para todo o território.
Para que a concessionária quer tantos dados
A aplicação mais óbvia é leitura remota.
Mas instalar comunicação apenas para eliminar a visita mensal do leiturista captura uma parte pequena do potencial.
Medidores podem informar falta de energia.
A distribuidora pode detectar grupos de consumidores simultaneamente desligados e localizar melhor a área afetada.
Informações de tensão podem ajudar a identificar regiões onde a qualidade do fornecimento está fora dos padrões.
Dados também podem auxiliar análise de perdas e fraude, dependendo das ferramentas utilizadas.
Equipamentos de automação podem permitir reconfiguração mais rápida de circuitos depois de determinadas falhas.
Geração solar e veículos elétricos aumentam a necessidade de enxergar a baixa tensão
A distribuição tradicional foi construída em grande parte para a energia fluir da subestação até o consumidor.
Geração distribuída muda esse padrão.
Residências e empresas com sistemas fotovoltaicos podem injetar energia na rede em determinados momentos.
Veículos elétricos adicionam cargas relevantes e potencialmente concentradas em alguns horários.
Baterias domésticas e sistemas de gerenciamento introduzem mais variáveis.
Quanto mais recursos aparecem na ponta, maior a utilidade de entender o que está acontecendo em cada parte da rede.
O consumidor também pode ganhar mais informação
Medição mais frequente pode permitir ao cliente acompanhar melhor o próprio perfil de consumo.
Dependendo da regulamentação e da plataforma oferecida, torna-se possível visualizar horários de maior uso e identificar mudanças na rotina.
Tarifas diferenciadas por horário também dependem de medição capaz de separar o consumo em períodos distintos.
Isso não significa economia automática.
Ter um medidor inteligente não reduz por si só a quantidade de energia usada.
A utilidade aparece quando dados melhores permitem decisões melhores.
A nova rede também cria novos riscos
Um medidor analógico não recebia atualização de software pela rede.
Um equipamento conectado pode receber.
Essa capacidade é útil porque falhas podem ser corrigidas sem substituir milhares de dispositivos.
Também cria uma nova superfície de segurança.
Firmware precisa ser autenticado.
Comunicações precisam de proteção adequada.
Credenciais e chaves criptográficas precisam ser gerenciadas durante anos.
Um equipamento instalado em poste ou residência pode permanecer ativo por muito mais tempo que um smartphone comum.
Interoperabilidade vale dinheiro ao longo de décadas
Uma rede de distribuição possui horizonte muito longo.
A concessionária pode instalar equipamentos hoje e precisar integrá-los a sistemas comprados daqui a dez anos.
Se toda comunicação depender de um fornecedor específico, trocar equipamentos pode se tornar caro e tecnicamente difícil.
Padrões abertos tentam reduzir esse aprisionamento.
Isso não elimina diferenças de implementação ou a necessidade de testes entre fabricantes.
Mas cria uma base comum sobre a qual equipamentos podem ser desenvolvidos e certificados.
O Brasil está entrando na era da medição inteligente
Distribuidoras brasileiras já realizaram diferentes projetos de medição avançada, especialmente em áreas de concessão onde modernização, perdas e novos modelos tarifários justificaram investimentos.
O movimento regulatório ganhou nova dimensão em 2026.
A ANEEL colocou em discussão requisitos mínimos para sistemas de medição inteligente destinados a consumidores de baixa tensão.
A decisão final é importante porque uma mudança nacional de escala exige compatibilidade mínima entre medidores, sistemas e regras de acesso às informações.
Não basta cada empresa instalar uma solução tecnicamente isolada.
Quem paga pela digitalização
Medidores, concentradores, antenas, sistemas de software e telecomunicações custam dinheiro.
Distribuidoras recuperam investimentos reconhecidos regulatoriamente por mecanismos tarifários.
Isso significa que a pergunta econômica precisa ir além do preço unitário do medidor.
É necessário comparar investimento com redução de custos operacionais, perdas evitadas, melhoria da qualidade, vida útil e benefícios oferecidos ao consumidor.
Uma implantação cara que produza poucos benefícios pode pressionar tarifas.
Uma implantação bem planejada pode reduzir gastos recorrentes e melhorar a utilização da rede.
Dados de consumo também exigem governança
Quanto mais detalhada a medição, mais ela pode revelar padrões sobre uma residência ou empresa.
Horários de consumo podem indicar presença, rotina e uso de determinados equipamentos quando analisados em alta resolução.
Isso não significa que qualquer medidor permita inferir automaticamente tudo o que acontece numa casa.
Significa que coleta, retenção, acesso e compartilhamento precisam ser definidos com cuidado.
Digitalizar a rede aumenta observabilidade operacional. Também aumenta responsabilidade sobre os dados gerados.
A modernização da distribuição não significa simplesmente substituir um relógio analógico por uma tela digital. Quando medidores, sensores e equipamentos começam a trocar informações, a própria natureza da infraestrutura muda. A rede elétrica passa a depender também de uma rede de dados. Isso aumenta observabilidade e capacidade de automação, mas traz junto custos, dependências tecnológicas e uma nova superfície de segurança que precisará funcionar durante décadas.

.png)
