O nome Orkut voltou a circular com força depois que seu criador, Orkut Büyükkökten, publicou um manifesto criticando a forma como algoritmos, publicidade e inteligência artificial passaram a organizar grande parte da experiência nas redes sociais. Uma petição pede apoio para a construção de ambientes digitais mais centrados em pessoas e comunidades. Isso não significa que o antigo Orkut tenha voltado ao ar nem que exista um cronograma confirmado de relançamento. A história é mais interessante justamente por isso. A nostalgia de uma rede encerrada em 2014 ajuda a mostrar o que parte dos usuários sente ter perdido quando as plataformas deixaram de organizar prioritariamente relações entre amigos e passaram a competir principalmente por atenção.

Resumo Infoalfa

Orkut Büyükkökten publicou em 2026 uma carta no site oficial associado à marca e lançou uma mobilização para medir o interesse em redes digitais centradas em conexões humanas.

A existência da petição não comprova que uma nova versão do Orkut esteja desenvolvida, financiada ou próxima do lançamento.

O Orkut original cresceu no Brasil apoiado em perfis, depoimentos, comunidades e fóruns, num modelo bastante diferente dos feeds infinitos e recomendações algorítmicas atuais.

Qualquer nova rede precisaria resolver problemas contemporâneos de moderação, privacidade, proteção de crianças, segurança, financiamento e efeito de rede.

Por que o Orkut marcou a internet brasileira e voltou a despertar interesse

O Orkut foi lançado pelo Google em 2004 e se tornou um fenômeno especialmente forte no Brasil. Durante parte de sua existência, o país representou uma das maiores bases de usuários do serviço.

O formato ajudava a transformar interesses cotidianos em espaços coletivos. Usuários participavam de comunidades sobre cidades, escolas, profissões, programas de televisão, bandas, esportes e milhares de assuntos absurdamente específicos.

Dentro dessas comunidades existiam fóruns. A conversa não precisava necessariamente partir de uma pessoa popular publicando algo para milhares de seguidores.

A arquitetura incentivava outra dinâmica. As pessoas procuravam um espaço temático e encontravam outras que já estavam ali.

Depoimentos e recados também criavam uma identidade social característica daquele período da internet. Parte da reputação de um perfil era construída pelo que outras pessoas escreviam sobre ele.

Isso não significa que o Orkut fosse um ambiente ideal.

Spam, perfis falsos, comunidades ofensivas, golpes, violações de privacidade e problemas de moderação também fizeram parte de sua história. A internet de meados dos anos 2000 possuía outra escala e outro grau de exigência regulatória.

Quando Facebook, Instagram e posteriormente plataformas de vídeo curto cresceram, a lógica dominante mudou.

Em vez de navegar principalmente por relações previamente escolhidas e comunidades explicitamente procuradas, usuários passaram a receber uma seleção contínua de conteúdo escolhida por sistemas de recomendação.

Isso resolveu um problema central das plataformas: o usuário não precisa saber exatamente quem seguir ou o que procurar para encontrar algo interessante.

O sistema observa comportamento e aprende o que tende a manter aquela pessoa consumindo conteúdo.

O preço dessa eficiência é uma experiência menos controlada conscientemente pelo próprio usuário.

É justamente essa mudança que aparece no manifesto de Büyükkökten. Ele argumenta que a internet social se afastou do objetivo de aproximar pessoas e passou a otimizar excessivamente engajamento, publicidade e conteúdo recomendado.

A campanha atual busca assinaturas para demonstrar interesse numa alternativa.

O ORKUT VOLTOU?

Não no sentido de uma rede social novamente disponível ao público.

Existe uma página oficial, um manifesto do criador e uma mobilização em favor de uma nova experiência social.

Até agora, isso não equivale a um lançamento comercial, aplicativo plenamente disponível ou cronograma público de retorno do serviço original.

Essa distinção evita transformar intenção em produto.

Também ajuda a compreender por que nostalgia é um sinal interessante, mas insuficiente para construir uma empresa.

Milhões de pessoas podem lembrar com carinho de uma plataforma e ainda não desejar utilizá-la diariamente em 2026.

Como algoritmos e modelos de negócio transformaram as redes sociais

As primeiras redes sociais dependiam fortemente do chamado grafo social. O conteúdo que aparecia estava associado às pessoas adicionadas pelo usuário, aos grupos de que participava e às páginas escolhidas.

Os sistemas atuais acrescentaram uma segunda lógica: o grafo de interesse.

Uma plataforma pode mostrar conteúdo de alguém que você nunca viu porque seus modelos estimam que aquele vídeo provavelmente prenderá sua atenção.

Essa mudança permitiu crescimento gigantesco do volume de conteúdo descoberto.

Também transformou criadores em participantes de uma competição permanente por distribuição algorítmica.

Uma publicação deixa de circular apenas entre amigos e passa a disputar alcance com praticamente qualquer conteúdo disponível na plataforma.

Publicidade acompanha esse sistema. Quanto mais precisamente a plataforma consegue prever interesses e comportamento, maior a capacidade de segmentar anúncios.

A inteligência artificial ampliou ainda mais essa transformação. Sistemas atuais não apenas classificam conteúdo. Conseguem gerar textos, imagens, vídeos, anúncios e perfis sintéticos.

Isso cria um ambiente em que o conteúdo oferecido ao usuário pode ser produzido, escolhido e personalizado por sistemas automáticos em várias etapas.

A crítica de que “a internet perdeu a alma” é uma opinião e precisa ser tratada como tal. Existem usuários que preferem justamente a capacidade atual de descobrir informação e entretenimento fora de sua rede pessoal.

Ao mesmo tempo, pesquisas sobre comportamento digital mostram preocupações legítimas com uso compulsivo, comparação social, desinformação e desenho de interfaces destinado a maximizar permanência.

O problema não é simplesmente a presença de um algoritmo. Uma lista cronológica também é um algoritmo de ordenação, ainda que extremamente simples.

A questão real está nos objetivos usados para definir o que será mostrado.

Um sistema pode otimizar relevância, diversidade, segurança, tempo de permanência, probabilidade de clique ou receita publicitária. Esses objetivos não produzem a mesma experiência.

ANTES E AGORA

Orkut clássico: amigos, comunidades, fóruns, depoimentos e navegação explicitamente escolhida.

Redes contemporâneas: feeds algorítmicos, vídeos curtos, criadores, publicidade altamente segmentada e descoberta baseada em comportamento.

A diferença não é que um modelo tenha relações humanas e o outro não. É que a lógica de distribuição passou a depender muito mais da previsão automática de atenção.

Essa mudança também alterou o significado de influência.

No Orkut, uma comunidade de dez mil pessoas podia ser enorme. Hoje, criadores individuais podem falar diariamente com milhões.

Isso criou novas profissões e mercados, mas também tornou métricas públicas como seguidores, visualizações e curtidas parte importante da identidade social online.

Uma rede futura que tente reduzir essa lógica precisará decidir como usuários descobrirão novos conteúdos e pessoas.

Retirar algoritmos de recomendação completamente pode deixar a experiência vazia para novos usuários.

Manter recomendações muito agressivas pode recriar exatamente o modelo criticado.

O que seria necessário para criar uma rede social mais humana atualmente

O primeiro desafio é o efeito de rede.

Uma rede social é mais útil quando as pessoas com quem você deseja falar também estão nela. Esse fenômeno favorece plataformas grandes.

Um concorrente pode possuir interface melhor e fracassar simplesmente porque os amigos dos usuários continuam em outro lugar.

Comunidades específicas oferecem uma saída. Uma rede não precisa convencer todo o planeta a migrar simultaneamente se consegue ser excepcionalmente útil para determinados grupos.

O segundo desafio é moderação.

Comunidades humanas produzem conflito, fraude, perseguição, abuso e material ilegal. A nostalgia costuma lembrar as melhores partes de plataformas antigas e esquecer o custo de moderá-las.

Uma rede contemporânea precisa de sistemas para denúncias, remoção, recursos, proteção infantil e resposta a abusos em escala.

O terceiro é privacidade.

No Brasil, a LGPD estabelece obrigações sobre tratamento de dados pessoais. Crianças e adolescentes possuem proteções adicionais, reforçadas pelo ECA Digital.

Uma plataforma que pretenda construir relações “mais humanas” precisará demonstrar também que não transforma essas relações numa base de vigilância comercial.

O quarto desafio é econômico.

Servidores, desenvolvimento, segurança e moderação custam dinheiro.

Uma rede que rejeite publicidade personalizada precisa encontrar outra fonte de receita. Assinaturas podem funcionar para um grupo pequeno e engajado, mas criam barreira de entrada. Serviços premium podem complementar operação gratuita, mas precisam ser suficientes para sustentar a infraestrutura.

O quinto desafio é a própria inteligência artificial.

Uma rede centrada em humanos terá de decidir como identificar bots, conteúdo sintético e contas automatizadas sem impedir usos legítimos da tecnologia.

Também precisará definir transparência. Se recomendações continuam existindo, o usuário pode saber por que determinado conteúdo apareceu? Pode escolher um feed cronológico? Pode desligar personalização?

Esses controles podem importar mais que a promessa genérica de “não usar algoritmos”.

Redes descentralizadas como Mastodon e protocolos sociais como ActivityPub mostram outra alternativa. Em vez de uma empresa controlar tudo, diferentes servidores podem interagir.

A descentralização reduz alguns tipos de concentração, mas adiciona complexidade para usuários e administradores.

Isso reforça a principal dificuldade da eventual volta do Orkut.

O valor do passado estava tanto nos recursos quanto no contexto daquela internet.

Havia menos smartphones, menos vídeo, menos comércio social, menos criadores profissionais e menos sistemas generativos.

Trazer comunidades de volta é tecnicamente possível. Trazer de volta exatamente a experiência social de 2008 não é.

Para o usuário, o debate pode ser útil mesmo que nenhuma nova versão seja lançada.

Antes de escolher uma rede, vale observar que informações ela coleta, como organiza o feed, se oferece controles de privacidade, como modera abuso, como ganha dinheiro e quais opções existem para exportar dados.

Esses critérios dizem mais sobre a relação futura do usuário com a plataforma que a familiaridade de um nome antigo.

LEITURA INFOALFA

A saudade do Orkut não prova que milhões de pessoas desejam voltar exatamente à internet dos anos 2000. Ela mostra que existe uma discussão real sobre pertencimento, comunidades e controle da experiência digital. Se uma nova rede surgir, não bastará ressuscitar depoimentos e fóruns. Ela terá de resolver privacidade, moderação, descoberta, financiamento e inteligência artificial dentro de uma internet muito mais complexa que aquela em que o Orkut nasceu.

Fontes consultadas