A usina de Hatta, em Dubai, utiliza eletricidade para bombear água montanha acima e, quando a rede precisa de energia, deixa essa água descer novamente através de turbinas. O ciclo devolve menos eletricidade do que consumiu para elevar a água. Ainda assim, pode ser extremamente útil. A aparente contradição desaparece quando entendemos que uma hidrelétrica reversível não existe principalmente para produzir energia nova. Sua função é deslocar energia no tempo, consumindo quando há disponibilidade e devolvendo potência quando o sistema precisa.

Por Portal Infoalfa

Resumo Infoalfa

A usina reversível de Hatta possui 250 MW de potência e 1.500 MWh de capacidade de armazenamento, segundo a Dubai Electricity and Water Authority.

A eficiência declarada de ciclo completo é de 78,9%. A instalação consegue fornecer energia à rede em aproximadamente 90 segundos.

O Brasil regulamentou em 2026 usinas hidrelétricas reversíveis como sistemas de armazenamento e a EPE começou a preparar etapas para um futuro processo competitivo de contratação de armazenamento hidráulico.

A “bateria gigante” de Dubai não guarda eletricidade. Guarda água no alto

Hatta utiliza dois níveis de reservatório. Quando a rede possui energia disponível para armazenamento, bombas retiram água do reservatório inferior e a enviam para o superior. A eletricidade consumida é convertida em energia potencial gravitacional.

Quando existe necessidade de geração, a água percorre o caminho inverso por um túnel subterrâneo de aproximadamente 1,2 quilômetro. O fluxo movimenta turbinas e produz eletricidade novamente.

O princípio é antigo. Usinas reversíveis existem há muitas décadas em diferentes países. O interesse atual aumentou porque redes com grande participação solar e eólica enfrentam uma questão fundamental: produção e consumo não acontecem necessariamente no mesmo horário.

A DEWA informa que Hatta possui potência de 250 MW, armazenamento de 1.500 MWh, eficiência de ida e volta de 78,9% e vida útil projetada de até 80 anos. O reservatório superior comporta aproximadamente 5,3 milhões de metros cúbicos de água. O investimento informado é de cerca de 1,42 bilhão de dirhams.

A diferença entre 250 MW e 1.500 MWh é central para entender qualquer sistema de armazenamento.

250 MW ≠ 1.500 MWh

MW, megawatts: indicam potência, ou quanto o sistema consegue entregar em determinado instante.

MWh, megawatt-hora: indicam quantidade de energia armazenada.

Se Hatta entregasse os 250 MW continuamente e toda a capacidade declarada estivesse disponível nesse regime, 1.500 MWh corresponderiam teoricamente a cerca de seis horas de operação na potência máxima. A operação real depende das condições e da estratégia utilizada pela rede.

A usina não guarda “eletricidade dentro da água”. Ela utiliza eletricidade para mudar a posição da água. O que fica armazenado é energia gravitacional.

Essa distinção ajuda a compreender por que a instalação consome e gera energia em momentos diferentes. A bomba funciona como carga elétrica. A turbina funciona como gerador.

Por que perder cerca de 20% da energia ainda pode valer a pena

Uma eficiência de 78,9% significa que parte da eletricidade utilizada no bombeamento não retorna à rede. Existem perdas em motores, bombas, turbinas, geradores, atrito da água e outros componentes.

Se o objetivo fosse simplesmente produzir mais energia do que foi consumido, a usina não faria sentido. Esse, porém, não é o problema que ela tenta resolver.

Imagine uma rede recebendo grande produção solar ao meio-dia, quando a demanda não consegue absorver toda a energia disponível naquela região. Horas depois, o sol desaparece e o consumo permanece elevado. Sem flexibilidade, o sistema pode precisar reduzir geração renovável num horário e acionar outras fontes no seguinte.

Armazenamento permite aceitar uma perda energética para ganhar flexibilidade temporal. A usina consome durante períodos de maior disponibilidade e gera quando o valor da energia e a necessidade sistêmica são maiores.

SOLAR PRODUZ → DEMANDA NÃO COINCIDE → BOMBEAMENTO → ÁGUA SOBE → ENERGIA FICA ARMAZENADA → REDE PRECISA → ÁGUA DESCE → GERAÇÃO

O ganho não está em criar energia adicional. Está em mudar o horário em que parte da energia fica disponível.

A DEWA afirma que energia limpa do Mohammed bin Rashid Al Maktoum Solar Park pode ser utilizada no bombeamento. Essa combinação mostra por que armazenamento se torna mais relevante à medida que cresce a participação de fontes variáveis.

A velocidade de resposta também possui valor. A empresa informa que Hatta consegue disponibilizar energia à rede em aproximadamente 90 segundos. Essa característica permite responder rapidamente a variações entre geração e consumo.

Uma usina reversível e uma bateria de íons de lítio não são concorrentes perfeitas. Cada tecnologia possui características diferentes.

BATERIA ELETROQUÍMICA x HIDRELÉTRICA REVERSÍVEL

Baterias: instalação modular, resposta muito rápida, possibilidade de localização próxima a cargas e geração, mas com degradação eletroquímica e custos que variam conforme duração e ciclos.

Usina reversível: grande escala, longa vida útil e possibilidade de armazenar enormes quantidades de energia, mas depende fortemente de geografia, licenciamento, reservatórios, obras civis e conexão à rede.

Não existe vencedora universal. Sistemas elétricos podem utilizar várias formas de armazenamento simultaneamente, escolhendo cada uma conforme duração, potência, localização e serviço necessário.

O que Hatta ensina para um Brasil com mais solar e eólica

O Brasil possui uma característica que torna o tema especialmente interessante: enorme experiência hidrelétrica, um Sistema Interligado Nacional continental e participação crescente de geração solar e eólica.

Isso não significa que qualquer barragem existente possa ser transformada simplesmente em usina reversível. O projeto exige diferença adequada de altitude, reservatórios ou possibilidade de construí-los, vazão, túneis ou condutos, equipamentos específicos, conexão à transmissão e licenciamento ambiental.

Usinas reversíveis de ciclo fechado podem utilizar dois reservatórios com pouca ou nenhuma conexão operacional contínua com rios naturais. Outras configurações utilizam reservatórios existentes. Cada arranjo possui impactos e requisitos distintos.

Em 2026, o Brasil deu passos regulatórios concretos. A Resolução Normativa nº 1.161 da ANEEL passou a disciplinar sistemas de armazenamento autônomos e inclui usinas hidrelétricas reversíveis em ciclo fechado. A agência já disponibiliza procedimento para registro e outorga desses projetos.

Em setembro, a EPE anunciou que começou a antecipar etapas de um futuro processo competitivo para contratação de serviços de armazenamento hidráulico, com foco em usinas reversíveis. Segundo a empresa, essas instalações podem acrescentar potência, flexibilidade operativa, integração de renováveis variáveis e resiliência ao Sistema Interligado Nacional.

POR QUE O ASSUNTO GANHOU IMPORTÂNCIA NO BRASIL

Crescimento rápido da geração solar.

Grande expansão eólica.

Maior necessidade de flexibilidade em determinados horários.

Ocorrência de restrições e cortes de geração renovável em algumas regiões.

Necessidade de potência quando produção solar diminui.

Nova regulamentação específica para sistemas de armazenamento.

A necessidade real de armazenamento, porém, não pode ser avaliada isoladamente. Expansão da transmissão, resposta da demanda, geração hidrelétrica convencional, intercâmbio entre regiões e outras formas de flexibilidade também participam da solução.

O próprio armazenamento precisa estar no lugar certo. Uma usina enorme conectada a uma região sem capacidade de transmissão suficiente pode não conseguir entregar todo o serviço esperado. Geografia favorável não basta se a conexão elétrica estiver distante ou saturada.

Custos ambientais e sociais também entram na decisão. Reservatórios, túneis, estradas e linhas de transmissão ocupam território. Ciclo fechado pode reduzir determinados impactos sobre rios em comparação com novas hidrelétricas convencionais, mas não torna o empreendimento ambientalmente neutro.

Evaporação representa perda de água em reservatórios expostos. Obras civis exigem grandes volumes de materiais. A vantagem está na possibilidade de operar por muitas décadas, distribuindo esses investimentos por uma vida útil extensa.

É exatamente nessa comparação sistêmica que Hatta se torna mais interessante para o Brasil. A usina de Dubai não demonstra que o país deveria replicar o mesmo projeto. Demonstra como uma rede com geração solar crescente pode encontrar valor em gastar energia num horário para recuperá-la parcialmente em outro.

Armazenamento não resolve a física criando eletricidade. Resolve um problema de tempo.

LEITURA INFOALFA

O objetivo do armazenamento não é criar energia. É impedir que disponibilidade e necessidade tenham obrigatoriamente de acontecer no mesmo instante. Armazenar energia é, em grande parte, aprender a mover eletricidade no tempo.

Fontes consultadas