O mundo não ficou simplesmente “sem fertilizantes”, mas a cadeia global entrou em uma nova fase de tensão em 2026. Conflitos no Oriente Médio afetaram energia, produção e transporte de insumos importantes, elevaram preços e atrasaram milhões de toneladas no comércio internacional. Para o Brasil, o problema ganha outra dimensão: o país é uma potência agrícola, mas importou cerca de 93% dos fertilizantes utilizados em 2025. Isso cria uma vulnerabilidade que começa longe das fazendas brasileiras e pode terminar no custo da próxima safra.

Resumo Infoalfa

A FAO informou em setembro de 2026 que a crise no Oriente Médio afetou fortemente mercados de energia e fertilizantes. A região do Golfo responde por parcela relevante da oferta mundial de ureia, amônia e enxofre.

A CNA já havia observado que o Brasil não enfrentava falta generalizada de produto, mas fertilizantes estavam caros e a relação de troca com soja e milho havia piorado. Segundo a entidade, 93% dos fertilizantes utilizados no Brasil em 2025 foram importados.

Uma alta internacional não chega ao supermercado de forma direta ou imediata. Entre fertilizante e alimento existem câmbio, calendário de compra, estoques, produtividade, margens do produtor, logística, indústria e varejo.

O mundo não ficou sem fertilizante, mas o mercado entrou em tensão

A expressão “falta de fertilizantes” simplifica demais a situação.

Existem regiões, produtos e momentos em que a disponibilidade pode ser reduzida.

Em outros casos, o produto continua disponível, mas chega mais caro ou com atraso.

Do ponto de vista do produtor, essas situações podem gerar efeitos semelhantes.

Se o adubo existe, mas custa caro demais em relação ao valor esperado da colheita, a quantidade economicamente acessível diminui.

Essa diferença entre escassez física e perda de acessibilidade é central para entender 2026.

A disrupção ganhou escala com a crise no Oriente Médio

Em setembro, a FAO apresentou números que mostram o tamanho da exposição do mercado.

Segundo a organização, a região do Golfo responde por aproximadamente 30% a 35% da oferta global de ureia.

Também responde por cerca de metade das exportações de enxofre e entre 20% e 30% da oferta internacional de amônia.

O Estreito de Ormuz participa de uma parcela relevante do comércio marítimo de energia e fertilizantes.

Quando o fluxo nessa rota é perturbado, o impacto não se limita aos países diretamente envolvidos no conflito.

Gás natural conecta energia e fertilizante

Fertilizantes nitrogenados dependem fortemente de amônia.

Para produzir amônia industrialmente em grande escala, é necessário hidrogênio.

Em grande parte das plantas existentes, esse hidrogênio é obtido a partir do gás natural.

O gás funciona tanto como matéria-prima quanto como fonte de energia.

Quando seu preço dispara, o custo da amônia pode aumentar rapidamente.

Plantas também podem reduzir produção quando operar deixa de ser economicamente viável ou quando o fornecimento é interrompido.

Amônia vira ureia e entra na lavoura

A ureia é uma das principais fontes de nitrogênio utilizadas mundialmente.

Ela é produzida a partir de amônia e dióxido de carbono.

Isso explica por que uma crise no gás pode chegar ao mercado de ureia mesmo sem existir qualquer problema numa mina.

Nitrogênio é fundamental para crescimento vegetal e formação de proteínas.

Mas ele representa apenas uma parte do conjunto de nutrientes agrícolas.

N, P e K possuem cadeias diferentes

O conhecido NPK reúne nitrogênio, fósforo e potássio.

Os três são macronutrientes importantes, mas chegam à fazenda por caminhos distintos.

Nitrogênio está fortemente ligado à indústria química e ao gás natural.

Fósforo vem principalmente da mineração de rocha fosfática e passa por processamento químico.

Potássio é obtido predominantemente por mineração de sais potássicos.

Uma crise pode atingir cada cadeia de maneira diferente.

Por isso, não existe um único preço ou uma única disponibilidade chamada simplesmente “fertilizante”.

O DAP mostra como outros elos também foram atingidos

A FAO informou alta de aproximadamente 26% no preço do DAP durante a crise.

DAP é fosfato diamônico, um fertilizante que fornece fósforo e nitrogênio.

Enxofre também entra em partes importantes da cadeia dos fosfatados porque é utilizado para produzir ácido sulfúrico.

Quando grandes exportadores do Golfo enfrentam interrupções, o impacto se espalha para produtos que não dependem apenas do gás natural.

Logística pode criar escassez mesmo quando existe produção

Uma fábrica pode continuar produzindo e ainda assim o produto não chegar ao destino no prazo.

Navios precisam atravessar rotas disponíveis.

Seguros marítimos podem encarecer.

Fretes podem subir.

Portos podem enfrentar congestionamento.

A FAO estimou em setembro atraso de aproximadamente 1,5 milhão a 3 milhões de toneladas por mês no comércio de fertilizantes durante a disrupção.

Isso mostra por que segurança de suprimento envolve muito mais que capacidade fabril.

O Brasil conseguiu importar, mas pagou mais

A CNA observou em maio que não havia falta generalizada de fertilizantes no mercado brasileiro.

O problema já estava aparecendo no preço.

Segundo a entidade, a ureia havia subido cerca de 40% no período analisado após o agravamento do conflito.

O MAP, importante fertilizante fosfatado, havia aumentado aproximadamente 20%.

Ao mesmo tempo, soja e milho praticamente não acompanharam esse movimento.

Isso piorou a relação de troca.

Relação de troca importa mais que o preço isolado

Para um produtor de soja, não basta saber que uma tonelada de fertilizante custa determinado número de reais.

Importa quantas sacas de soja precisam ser vendidas para comprar essa tonelada.

Se fertilizante sobe 30% e a soja também sobe 30%, parte do impacto econômico é compensada.

Se o fertilizante sobe e o grão permanece praticamente estável, a margem é comprimida.

Essa relação influencia decisões de compra, pacote tecnológico e área plantada.

Fertilizante caro pode reduzir aplicação

O produtor não reage necessariamente abandonando a lavoura.

Ele pode adiar compra.

Pode substituir fontes.

Pode alterar a cultura.

Pode reduzir determinada dose quando a análise agronômica e o risco econômico levam nessa direção.

A consequência depende do solo, da cultura, do nutriente e do histórico de fertilidade.

Reduzir nitrogênio em milho possui efeito diferente de diminuir aplicação de potássio num solo com boa reserva do nutriente.

Por isso, não existe uma relação universal entre “10% menos fertilizante” e “10% menos produtividade”.

O impacto na produção pode aparecer meses depois

Fertilizantes são comprados antes ou durante etapas específicas da safra.

Uma crise de preço em setembro pode atingir culturas em calendários diferentes.

Depois do plantio, são necessários meses até a colheita.

O produto ainda passa por armazenamento, processamento, transporte e distribuição antes de chegar ao consumidor.

Isso significa que um choque atual não deve ser traduzido em aumento automático do supermercado na semana seguinte.

Soja, milho e cana concentram a maior parte do consumo brasileiro

O Plano Nacional de Fertilizantes informa que soja, milho e cana-de-açúcar respondem juntas por mais de 73% do uso de fertilizantes no país.

Isso concentra grande parte do volume em culturas de enorme importância econômica.

Soja e milho também alimentam cadeias de proteína animal por meio da produção de farelo e ração.

Um choque de custo pode, portanto, circular por diferentes partes do sistema agroalimentar.

Arroz e feijão enfrentam outra realidade econômica

Culturas destinadas principalmente ao mercado interno podem operar com margens e estruturas produtivas diferentes.

O próprio Plano Nacional de Fertilizantes destaca que arroz e feijão apresentam potencial de aumento de produtividade, mas são sensíveis à volatilidade internacional dos insumos.

Quando o adubo fica caro, uma cultura com margem estreita pode ter menos capacidade de absorver o choque.

O efeito final depende também de área plantada, clima e preços recebidos pelo agricultor.

O Brasil produz alimentos, mas importa grande parte dos nutrientes

A dependência externa é o ponto estrutural da pauta.

A CNA calcula que aproximadamente 93% dos fertilizantes utilizados pelo Brasil em 2025 foram importados.

O país responde por cerca de 8% do consumo global segundo o Plano Nacional de Fertilizantes.

Isso significa que um dos maiores produtores agrícolas do planeta depende fortemente de cadeias internacionais para manter parte importante da produtividade.

Não é uma dependência pequena ou periférica.

Os fornecedores também estão mudando

Durante muito tempo, Rússia e Canadá ocuparam posições muito relevantes no fornecimento ao Brasil.

Em 2025, segundo levantamento da CNA baseado no Comex Stat, a China passou a responder por cerca de 26% do volume importado, ficando ligeiramente à frente da Rússia, com aproximadamente 25%.

O Canadá respondeu por cerca de 11%.

Essa mudança mostra uma tentativa natural do mercado de buscar origens alternativas quando preços e riscos mudam.

Diversificar reduz dependência de um fornecedor específico.

Não elimina dependência do comércio internacional.

Câmbio adiciona outra camada de risco

Mesmo que o preço internacional fique estável em dólares, uma desvalorização do real pode encarecer o fertilizante dentro do Brasil.

O produtor vende parte de sua produção em mercados também influenciados pelo dólar, o que pode oferecer alguma proteção em culturas exportadoras.

Essa compensação não é perfeita.

Custos, preços e calendários não se movimentam na mesma proporção.

Produzir mais no Brasil parece óbvio, mas não é simples

Reduzir dependência externa exige projetos de mineração, indústria química, gás, energia, ferrovias, portos e licenciamento.

Potássio depende de jazidas e mineração.

Fosfatados dependem de reservas e processamento.

Nitrogenados exigem matéria-prima energética competitiva e grandes plantas industriais.

Uma fábrica de amônia pode existir tecnicamente e ainda não ser economicamente competitiva diante de importações produzidas em regiões com gás muito barato.

O Plano Nacional de Fertilizantes tenta tratar a dependência como política de longo prazo

O PNF reconhece formalmente a vulnerabilidade criada pelo peso das importações.

A proposta envolve ampliar produção nacional, melhorar ambiente regulatório, estimular pesquisa, aumentar eficiência e diversificar fontes.

Uma estratégia desse tipo não produz autossuficiência de uma safra para outra.

Projetos minerais e industriais levam anos.

Por isso, resiliência também depende de medidas que funcionem enquanto a dependência continua existindo.

O Profert adiciona incentivo econômico à política

Em 3 de setembro de 2026 foi sancionada a Lei nº 15.496, que criou o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes.

O texto estabelece entre seus objetivos reduzir dependência externa, garantir suprimento estável e diminuir custos da cadeia agropecuária.

O programa alcança fertilizantes sintéticos, minerais e orgânicos, além de matérias-primas, remineralizadores, bioinsumos e biofertilizantes nas condições previstas pela lei.

A existência do programa não significa que novas fábricas estarão produzindo imediatamente.

O resultado dependerá de investimentos que efetivamente avancem.

Bioinsumos ajudam, mas não substituem universalmente NPK

Microrganismos podem melhorar disponibilidade de nutrientes e eficiência em determinadas situações.

O Brasil possui experiência importante com fixação biológica de nitrogênio na soja.

Remineralizadores também podem desempenhar papel específico conforme composição e solo.

Essas tecnologias reduzem necessidade de determinados insumos em alguns sistemas.

Não devem ser apresentadas como substituição automática de todo nitrogênio, fósforo e potássio exigido pela agricultura.

A verdadeira questão é resiliência de suprimento

Autossuficiência completa pode ser cara e desnecessária para alguns produtos.

Dependência quase total de poucos fornecedores também aumenta risco.

Entre os dois extremos existe uma estratégia de resiliência.

Ela pode combinar produção doméstica, fornecedores diversificados, contratos, estoques, infraestrutura portuária, eficiência agronômica e desenvolvimento de alternativas.

O objetivo é impedir que um choque em um único ponto da cadeia transforme rapidamente uma vantagem agrícola em vulnerabilidade.

LEITURA INFOALFA

Existe uma aparente contradição no Brasil. O país possui terra, clima, tecnologia agrícola e enorme capacidade de produção, mas depende do exterior para grande parte dos nutrientes que sustentam essa produtividade. Isso significa que segurança alimentar não começa apenas na fazenda. Ela passa por gás natural, minas, fábricas, navios, estreitos marítimos, portos, câmbio e relações comerciais. A crise de 2026 tornou visível justamente essa cadeia que normalmente fica escondida atrás de uma lavoura produtiva.

Fontes consultadas