O Brasil apareceu na oitava posição de um teste internacional sobre conhecimento de privacidade e cibersegurança em 2026. É uma informação positiva, mas muito mais limitada do que a expressão “ranking de cibersegurança” pode sugerir. O levantamento não mede quantos ataques o país sofre, a segurança das empresas brasileiras, a proteção da infraestrutura crítica nem a capacidade nacional de defesa cibernética. Ele mede como pessoas que decidiram voluntariamente responder a um questionário reconhecem conceitos e práticas de segurança digital. A diferença parece técnica. Na prática, muda completamente a leitura do resultado.

Por Portal Infoalfa

Resumo Infoalfa

O National Privacy Test 2026, realizado pela NordVPN, reuniu cerca de 23,2 mil participantes de pelo menos 27 países. O Brasil obteve 44 pontos e apareceu em oitavo lugar.

A própria organização responsável pelo teste alerta que a amostra é voluntária e não representa a população geral. Pessoas mais interessadas em tecnologia e privacidade podem estar super-representadas.

O resultado mede principalmente conhecimento e conscientização. Não mede diretamente comportamento real, quantidade de golpes, segurança de empresas, infraestrutura digital ou capacidade tecnológica brasileira em inteligência artificial.

O Brasil ficou em 8º. Mas 8º em quê?

O National Privacy Test, ou NPT, é um questionário online produzido pela NordVPN para avaliar conhecimento sobre privacidade, cibersegurança e hábitos digitais. Na edição de 2026, cada participante respondeu a 24 questões e recebeu uma pontuação de zero a cem. A média global ficou em 46 pontos. Singapura liderou com 52, enquanto o Brasil terminou com 44 e ocupou a oitava posição internacional.

O dado é interessante porque oferece uma fotografia do desempenho das pessoas que fizeram o teste. O problema aparece quando a posição é convertida em algo que o levantamento nunca mediu. O Brasil não foi classificado como o oitavo país mais protegido contra ataques cibernéticos, o oitavo com menos fraudes nem o oitavo com melhor infraestrutura digital.

A própria NordVPN coloca uma ressalva metodológica explícita. Aproximadamente 23,2 mil pessoas formaram a base demográfica global de 2026, mas a amostra não é representativa da população. Os participantes chegaram voluntariamente ao questionário e decidiram concluí-lo. Isso cria autoseleção. Pessoas interessadas em privacidade e tecnologia têm maior probabilidade de participar do que quem nunca acompanha o tema.

O RANKING NÃO MEDE ISSO

Número de ataques cibernéticos sofridos pelo Brasil.

Segurança das redes de empresas brasileiras.

Proteção de infraestrutura crítica.

Volume de fraudes financeiras ou phishing.

Capacidade militar ou governamental de defesa cibernética.

Capacidade de pesquisa, infraestrutura computacional ou competitividade brasileira em inteligência artificial.

Também é preciso cuidado ao comparar anos. O Brasil subiu duas posições em relação à edição anterior, mas posição relativa pode mudar porque outros países melhoraram ou pioraram, porque a composição dos participantes mudou ou porque perguntas foram alteradas. Para afirmar que houve evolução real do conhecimento médio da população brasileira seria necessário controlar essas diferenças.

Isso não torna o NPT inútil. O teste funciona melhor quando usado como indicador de lacunas específicas. Entre os participantes brasileiros, por exemplo, a NordVPN encontrou desempenho elevado em reconhecimento de senhas fortes, mas resultado muito pior na identificação de sites de phishing. Essa diferença aponta um problema concreto de alfabetização digital.

Uma pessoa pode conhecer regras gerais de segurança e ainda ter dificuldade de aplicá-las diante de uma página convincente, uma mensagem urgente ou uma cobrança que traz dados pessoais verdadeiros. É justamente nesse espaço entre teoria e situação real que muitos golpes funcionam.

Saber a resposta certa não significa agir corretamente

Conhecimento é uma das camadas da segurança digital. Comportamento é outra. Exposição é uma terceira. Infraestrutura é uma quarta. Misturar essas quatro dimensões produz interpretações muito frágeis.

Uma pessoa pode saber que não deve reutilizar senhas e continuar utilizando a mesma combinação em vários serviços porque considera mais prático. Pode saber que autenticação em dois fatores aumenta a proteção e nunca ativá-la. Pode reconhecer em um questionário que links suspeitos são perigosos e clicar quando a mensagem utiliza o nome do banco, CPF correto e ameaça de bloqueio.

Essa distância entre saber e fazer aparece no próprio levantamento. A NordVPN afirma que os participantes demonstram melhor conhecimento de conceitos gerais de privacidade e risco do que de práticas cotidianas. Entre brasileiros, a categoria ligada à vida digital diária ficou significativamente abaixo das categorias de conscientização.

Isso acontece porque decisão real é tomada sob condições que um teste não reproduz. Existe pressa, distração, medo de perder acesso a uma conta, autoridade aparente, necessidade de concluir uma compra ou confiança na plataforma utilizada. Engenharia social explora contexto, não apenas desconhecimento.

CONHECIMENTO → COMPORTAMENTO → EXPOSIÇÃO → SEGURANÇA

Conhecimento: a pessoa sabe qual seria a prática correta?

Comportamento: ela realmente adota essa prática no cotidiano?

Exposição: quantas oportunidades de fraude, vazamento e ataque enfrenta?

Segurança: quais barreiras técnicas e institucionais continuam funcionando quando ocorre um erro?

Esse modelo também ajuda a explicar por que um país pode ter usuários relativamente informados e continuar registrando grande quantidade de fraudes digitais. O volume de transações, a adoção massiva de serviços online, o tamanho da população conectada e a profissionalização dos criminosos aumentam a superfície de ataque.

Segurança real também depende de sistemas que protejam o usuário quando ele erra. Bancos utilizam mecanismos antifraude, navegadores bloqueiam páginas conhecidas, serviços oferecem autenticação multifator e empresas monitoram acessos suspeitos. Boa cibersegurança não pode pressupor que todas as pessoas tomarão sempre a decisão correta.

Por isso, pesquisas sobre conhecimento são valiosas principalmente para identificar onde a comunicação e a educação precisam melhorar. Elas não substituem estatísticas de incidentes, estudos sobre fraudes, dados de empresas, informações do CERT.br e indicadores de infraestrutura.

O resultado sobre inteligência artificial também precisa ser colocado no lugar certo

A manchete que coloca o Brasil “atrás em IA” cria outro problema de escala. Perguntas sobre inteligência artificial dentro de um teste de privacidade medem familiaridade dos participantes com determinados conceitos e riscos relacionados à tecnologia. Elas não medem a capacidade brasileira de desenvolver modelos, formar pesquisadores, instalar data centers ou competir na indústria global de IA.

Uma pessoa pode entender perfeitamente que conteúdo publicado em redes sociais pode ser utilizado em processos de treinamento ou análise automatizada e não possuir qualquer conhecimento técnico sobre construção de modelos. Da mesma forma, um país pode ter indústria forte de software e pesquisa acadêmica relevante enquanto parte da população conhece pouco sobre funcionamento de sistemas generativos.

Alfabetização em IA é um tema importante por si só. À medida que assistentes, geradores de imagem e ferramentas automatizadas entram no cotidiano, usuários precisam compreender questões como dados pessoais, conteúdo sintético, erros dos modelos, manipulação, autoria e limites de confiança.

Mas isso é diferente de capacidade tecnológica nacional. Para avaliar esta última seria necessário olhar investimento em pesquisa, infraestrutura computacional, produção científica, formação de profissionais, empresas, patentes, adoção produtiva, acesso a chips e energia.

QUANDO VOCÊ ENCONTRAR UM RANKING DIGITAL, PERGUNTE

O que exatamente está sendo medido?

Quem participou?

A amostra representa a população?

O resultado mede conhecimento, comportamento ou desempenho real?

Os anos são diretamente comparáveis?

A manchete descreve a mesma coisa que a metodologia realmente mediu?

Essa é a utilidade mais durável do National Privacy Test. Ele não permite afirmar que o Brasil se tornou o oitavo país mais seguro da internet. Permite observar como um grupo de participantes brasileiros respondeu a perguntas sobre riscos digitais e onde apareceram lacunas de conhecimento.

O oitavo lugar continua sendo informação. Só precisa permanecer dentro da régua em que foi produzido.

LEITURA INFOALFA

Rankings são úteis quando sabemos exatamente o que foi colocado na régua. Subir em um teste de conhecimento digital é uma boa informação. Transformar isso em prova de que o país ficou mais seguro seria outra coisa.

Fontes consultadas