Uma usina hidrelétrica reversível parece estranha à primeira vista porque pode gastar eletricidade para bombear água morro acima. O sentido aparece quando o sistema elétrico precisa guardar energia produzida em horários de sobra e recuperá-la algumas horas depois, quando a demanda aumenta ou a geração solar diminui. É por isso que essas instalações são comparadas a baterias gigantes. Elas não criam energia e devolvem menos do que consumiram no bombeamento, mas podem oferecer algo cada vez mais valioso numa rede com muita geração solar e eólica: capacidade de deslocar energia no tempo.

Resumo Infoalfa

Usinas reversíveis utilizam dois níveis de armazenamento de água. Quando há energia disponível, bombas elevam água para o reservatório superior. Quando o sistema precisa de geração, a água retorna passando por turbinas.

O ciclo possui perdas. A utilidade econômica não depende de produzir mais energia do que consumiu, mas de comprar ou utilizar eletricidade em períodos de sobra e disponibilizá-la em momentos de maior valor para o sistema.

Em setembro de 2026, a EPE apresentou plano de trabalho para antecipar etapas de um futuro procedimento competitivo de contratação de serviços de armazenamento hidráulico, com foco em usinas reversíveis.

A medida está relacionada à Resolução CNPE nº 8/2026 e às competências atribuídas à EPE pela Lei nº 15.269/2025. Isso não significa que uma usina específica tenha recebido autorização de construção.

Como uma usina reversível transforma água em armazenamento de energia

A configuração clássica utiliza um reservatório inferior e outro superior separados por diferença de altitude. Tubulações ligam os dois níveis a máquinas hidráulicas capazes de funcionar como bomba e turbina ou a equipamentos separados.

Durante períodos de eletricidade abundante, o sistema consome energia da rede e bombeia água para cima. A eletricidade é transformada em energia potencial gravitacional.

Quando a rede necessita de geração, a água desce e movimenta turbinas. A energia potencial volta a ser eletricidade.

O processo não é 100% eficiente. Existem perdas em motores, bombas, tubulações, turbinas, geradores e sistemas elétricos.

Eficiências de ciclo frequentemente ficam na faixa aproximada de 70% a 85% em projetos modernos, dependendo da instalação. Isso significa que para cada 100 MWh utilizados no bombeamento podem retornar, por exemplo, 75 ou 80 MWh.

Essa perda não torna a tecnologia inútil.

Uma bateria de lítio também possui perdas. O valor está na capacidade de armazenar quando a eletricidade é abundante e devolver quando ela é necessária.

POTÊNCIA E ENERGIA SÃO COISAS DIFERENTES

Uma usina reversível de 1.000 MW pode entregar até aproximadamente 1.000 megawatts de potência num determinado momento.

Se o reservatório permitir manter essa geração durante oito horas, a capacidade energética útil seria da ordem de 8.000 MWh.

A diferença entre potência e duração é fundamental para comparar armazenamento hidráulico com baterias.

Essa é uma vantagem importante das reversíveis. Reservatórios podem armazenar enormes quantidades de energia durante muitas horas ou até períodos maiores.

Baterias eletroquímicas tendem a ser mais modulares e rápidas de instalar. Usinas reversíveis exigem geografia, engenharia pesada e licenciamento, mas podem alcançar escala energética muito maior.

Por que o sistema elétrico brasileiro pode precisar dessa tecnologia

O Brasil já possui grande experiência com armazenamento na forma de água em reservatórios hidrelétricos convencionais.

A diferença é que uma hidrelétrica tradicional depende da água que chega naturalmente pelo ciclo hidrológico. Uma reversível pode utilizar eletricidade da rede para devolver água ao reservatório superior e repetir o ciclo.

O crescimento solar muda a operação do Sistema Interligado Nacional.

Durante horas de sol intenso, milhões de painéis e grandes usinas fotovoltaicas podem reduzir a demanda líquida atendida pelas demais fontes. No fim da tarde, essa geração cai rapidamente enquanto consumo residencial permanece elevado.

Armazenamento pode absorver parte da energia disponível durante o dia e devolvê-la à noite.

Eólica acrescenta outro tipo de variabilidade. Ventos não obedecem à demanda do sistema.

Flexibilidade também ajuda em contingências. Uma reversível pode aumentar ou reduzir potência rapidamente, dependendo do projeto, contribuindo para frequência e equilíbrio da rede.

Foi nesse contexto que a EPE apresentou em 15 de setembro de 2026 um plano para antecipar etapas de futuro processo competitivo para sistemas de armazenamento hidráulico.

A empresa classificou esses sistemas como recursos estratégicos para segurança energética, estabilidade do SIN, integração de renováveis e resiliência.

Esse movimento regulatório é importante, mas precisa ser interpretado corretamente.

A EPE está estruturando critérios, estudos e procedimentos. Isso é diferente de dizer que o governo já contratou ou iniciou a construção de uma determinada usina reversível.

Custos, impactos ambientais e obstáculos para tirar projetos do papel

A primeira barreira é geográfica.

Dois reservatórios precisam estar suficientemente separados em altitude para armazenar energia com eficiência. Quanto maior o desnível, menor o volume de água necessário para armazenar a mesma quantidade de energia.

Mas relevo adequado não basta. O local precisa ter geologia compatível, conexão à rede e viabilidade ambiental.

Projetos podem utilizar reservatórios existentes, minas, cavas ou sistemas fechados que reduzem dependência de rios. Cada configuração possui impactos diferentes.

Água continua sendo necessária. Perdas por evaporação precisam ser repostas. Projetos conectados a cursos d’água podem apresentar efeitos sobre ecossistemas, enquanto sistemas fechados podem reduzir algumas dessas interações.

Construção de barragens, túneis e linhas de transmissão também produz impacto territorial.

O segundo obstáculo é econômico. Uma usina reversível possui investimento inicial elevado e vida útil longa.

O modelo de remuneração precisa reconhecer serviços que vão além da energia gerada. Se o projeto for pago apenas pelos MWh vendidos, pode não receber valor pela capacidade de responder rapidamente, estabilizar frequência ou reservar potência.

É justamente por isso que o desenho regulatório importa.

Comparar reversíveis com baterias exige olhar para função e duração.

Baterias de lítio podem ser melhores para respostas muito rápidas e projetos menores. Reversíveis podem ser competitivas quando o sistema precisa armazenar milhares de MWh por muitas horas.

Uma tecnologia não necessariamente elimina a outra.

O Brasil pode utilizar diferentes formas de flexibilidade ao mesmo tempo, incluindo reservatórios existentes, baterias, resposta da demanda, interligações regionais e térmicas de apoio.

LEITURA INFOALFA

Bombear água para cima parece desperdício apenas quando a eletricidade é tratada como um produto que possui o mesmo valor em qualquer horário. Redes elétricas não funcionam assim. O desafio é ter energia disponível exatamente quando o sistema precisa. Usinas reversíveis sacrificam parte da energia no ciclo para ganhar flexibilidade no tempo.

Fontes consultadas