Usuários da Vivo começaram a encontrar em agosto uma rede identificada como “Vivo Starlink” durante testes de conexão direta entre celulares e satélites. A aparição reforçou informações de que Telefônica Brasil e Starlink negociam uma parceria para Direct-to-Device, ou D2D. Até 10 de setembro de 2026, porém, não havia anúncio público definitivo das empresas confirmando contrato comercial, preço, data de lançamento ou abrangência do serviço. O que está confirmado é que o Brasil possui um ambiente regulatório experimental criado pela Anatel para esse tipo de tecnologia e que operadoras já realizam testes de telefonia móvel por satélite no país.

A ideia parece semelhante à internet residencial da Starlink, mas funciona de outra forma. Em vez de instalar uma antena externa específica, determinados satélites tentam se comunicar diretamente com celulares utilizando frequências associadas à rede móvel.

O potencial é especialmente relevante em um país continental. Estradas, áreas rurais, regiões remotas e locais atingidos por desastres podem ficar fora do alcance das torres terrestres. O satélite pode preencher parte desses vazios. Isso não significa substituir 4G, 5G ou fibra óptica. Significa estender a rede para lugares onde a infraestrutura convencional perde alcance.

Resumo Infoalfa

Vivo e Starlink já anunciaram um serviço comercial? Não até 10 de setembro de 2026.

Existem testes? Sim. A identificação “Vivo Starlink” apareceu durante testes e a Anatel possui sandbox específico para Direct-to-Device.

É preciso antena Starlink? A proposta do D2D é justamente permitir comunicação direta com celulares compatíveis, sem a antena residencial tradicional.

Isso substitui 4G e 5G? Não. A própria Anatel trata D2D como tecnologia complementar à rede terrestre.

Onde pode fazer mais diferença? Áreas rurais, estradas, regiões isoladas e situações em que torres terrestres estejam indisponíveis.

Vivo e Starlink estão fechando um acordo?

Há indícios consistentes de negociação e testes, mas isso ainda não permite tratar a parceria comercial como fato consumado.

Em agosto, o Tecnoblog registrou a presença da rede “Vivo Starlink” em celulares e informou que a operadora preparava um anúncio relacionado à tecnologia. Fontes secundárias também apontaram uma autorização temporária para testes dentro do ambiente regulatório da Anatel.

O que continua faltando é a etapa que realmente importa para o consumidor. Vivo e SpaceX precisam anunciar formalmente se haverá serviço, em quais planos, com quais celulares, em quais regiões e por quanto.

Negociação não é lançamento. Teste não é contrato. Uma rede aparecendo na tela do aparelho não é tabela de preços.

O que já está confirmado

A Anatel criou em 2024 um ambiente regulatório experimental específico para sistemas satelitais Direct-to-Device.

O sandbox permite que operadoras de Serviço Móvel Pessoal solicitem autorização temporária para utilizar frequências de suas redes móveis em testes com satélites.

A lógica é testar interferência, desempenho e modelos de funcionamento antes de uma regulamentação comercial definitiva.

O programa possui vigência de dois anos e meio contados a partir de abril de 2024. As autorizações individuais podem ter condições específicas, quantidade declarada de estações e períodos próprios de experimento.

Por isso, números como “50 aparelhos” precisam ser associados à eventual autorização específica de uma empresa. Não representam limite geral do D2D no Brasil.

O que ainda é negociação

Preço, data de lançamento, área de cobertura, compatibilidade completa e modelo comercial continuam dependendo de anúncio oficial.

Também não está confirmado se uma eventual parceria seria exclusiva, se o recurso entraria em planos existentes ou se seria vendido como serviço adicional.

A própria expressão “Starlink no celular” pode criar expectativa exagerada. O usuário tende a imaginar a mesma experiência de banda larga encontrada em uma antena residencial. D2D trabalha com limitações de potência, espectro e capacidade completamente diferentes.

O que significa Direct-to-Device

Em uma rede móvel convencional, o celular conversa com uma estação rádio-base instalada em solo.

A torre recebe o sinal e o encaminha para a infraestrutura da operadora, que conecta a chamada ou sessão de dados ao restante da rede.

No D2D, o satélite assume temporariamente o papel do acesso de rádio. O telefone transmite em frequências compatíveis com a rede móvel e o satélite recebe esse sinal em órbita.

Depois, a comunicação precisa ser encaminhada para a infraestrutura terrestre e integrada ao núcleo da operadora.

O satélite, portanto, não elimina a rede móvel. Ele vira mais uma forma de chegar até ela.

Como um satélite consegue conversar com um celular comum

O desafio é enorme porque smartphones possuem antenas pequenas e potência limitada.

Satélites precisam compensar essa limitação utilizando antenas capazes de formar feixes sobre grandes áreas e sistemas de rádio suficientemente sensíveis para receber sinais fracos vindos do solo.

Constelações em órbita baixa ajudam porque ficam muito mais próximas da Terra do que satélites geoestacionários.

Mesmo assim, árvores densas, relevo, estruturas e ambientes internos podem degradar a conexão. Visão relativamente aberta do céu tende a favorecer o funcionamento.

Por que isso é diferente da Starlink residencial

A antena residencial Starlink é muito maior que a antena de um celular e foi projetada especificamente para manter comunicação de alta capacidade com os satélites.

Ela possui alimentação elétrica própria, eletrônica dedicada e pode usar frequências diferentes daquelas da rede móvel.

O smartphone precisa trabalhar com hardware muito menor e seguir regras de potência e espectro próprias da telefonia celular.

Por isso, não é realista esperar que a primeira geração de D2D entregue a mesma capacidade de uma conexão fixa via Starlink.

O Brasil já testou essa tecnologia antes

Vivo e Starlink não inauguram o Direct-to-Device no país.

Em março de 2025, a Anatel acompanhou testes realizados pela Claro e pela empresa Lynk no Maranhão. A agência informou que foram obtidas conexões estáveis de voz e dados em áreas anteriormente sem cobertura móvel.

No mês seguinte, a Anatel acompanhou uma demonstração da Viasat em Brasília. Naquele teste, celulares trocaram mensagens utilizando um satélite geoestacionário na banda L. A aplicação também foi demonstrada para sensores e dispositivos de Internet das Coisas.

Esses experimentos mostram que o D2D é uma frente tecnológica mais ampla, não uma característica exclusiva da Starlink.

Onde D2D pode fazer diferença

O maior valor não aparece onde uma cidade já possui boa cobertura 5G.

A rede terrestre oferece muito mais capacidade em áreas densamente povoadas porque várias torres reutilizam frequências em células relativamente pequenas.

O satélite ganha importância justamente quando não existe torre próxima.

Trechos de rodovia, fazendas, comunidades isoladas, embarcações próximas da costa e regiões de baixa densidade populacional são cenários em que uma conexão limitada pode ser muito melhor do que nenhuma conexão.

O papel em emergências e desastres

Existe também uma aplicação de resiliência.

Enchentes, incêndios, tempestades e quedas de energia podem derrubar estações rádio-base ou interromper o backhaul que conecta essas torres à rede.

Uma camada satelital pode permitir comunicação mínima quando parte da infraestrutura terrestre estiver indisponível.

Isso não significa que D2D permanecerá imune a qualquer desastre. O próprio telefone precisa ter bateria, o usuário precisa conseguir enxergar os satélites e o restante da infraestrutura de integração precisa continuar funcionando.

Por que satélite não substitui automaticamente 4G e 5G

A própria Anatel já deixou clara sua posição. D2D deve complementar o serviço móvel terrestre, não substituí-lo.

Uma torre urbana pode atender milhares de usuários com grande quantidade de espectro e capacidade reutilizada em células próximas.

Um satélite cobre área muito maior e precisa dividir recursos entre usuários espalhados por essa região.

É por isso que mensagens e serviços de baixa taxa de dados aparecem primeiro em muitas implementações. Voz e internet convencional exigem capacidade maior.

O avanço das constelações e das antenas espaciais pode melhorar bastante essa situação. Física e espectro continuam impondo limites.

Velocidade, capacidade e latência

Não existe um único número de velocidade aplicável a todo sistema D2D.

Desempenho depende da constelação, quantidade de satélites visíveis, largura de banda disponível, número de usuários, tecnologia do terminal e condições de propagação.

Satélites de órbita baixa podem oferecer latência muito menor que sistemas geoestacionários, mas continuarão dividindo capacidade entre grandes áreas.

Qualquer velocidade anunciada para um eventual serviço Vivo-Starlink deverá ser tratada como especificação própria daquele produto, não como característica universal da tecnologia.

Quais celulares poderão funcionar

Uma das promessas mais atraentes do D2D é utilizar aparelhos já existentes em vez de exigir telefone satelital dedicado.

Isso não significa compatibilidade automática com qualquer smartphone.

Bandas suportadas, geração do modem, firmware, sistema operacional e implementação da operadora podem determinar quais modelos serão habilitados.

Até existir anúncio oficial da Vivo, qualquer lista definitiva de aparelhos compatíveis seria especulação.

Quem controla as frequências

Satélite e rede móvel precisam dividir o espectro sem prejudicar serviços existentes.

É justamente por isso que a parceria com uma operadora terrestre é importante. A prestadora possui autorização para utilizar determinadas faixas e consegue integrar o serviço ao seu núcleo de rede.

A Anatel precisa avaliar condições de uso, interferência e convivência com outras redes.

No estágio experimental, o sandbox permite testar essas condições antes que o modelo seja incorporado de forma definitiva à regulamentação.

Quanto poderá custar

Essa resposta ainda não existe publicamente para uma eventual oferta Vivo-Starlink no Brasil.

O recurso pode ser incluído em determinados planos, vendido como adicional, cobrado por uso ou oferecido inicialmente apenas em pacotes específicos.

Também é possível que diferentes serviços tenham preços diferentes. Mensagens de emergência exigem muito menos capacidade que navegação convencional pela internet.

Até anúncio oficial, qualquer preço atribuído à parceria deve ser tratado como rumor.

Vivo, Claro e a corrida pelo celular conectado ao satélite

A disputa não envolve apenas duas empresas.

Claro já participou de testes com a Lynk. Viasat demonstrou tecnologia em Brasília. Outras constelações e fabricantes trabalham globalmente com redes não terrestres.

Isso aumenta a chance de o mercado brasileiro receber mais de uma arquitetura de serviço.

A competição será definida por cobertura, capacidade, compatibilidade com aparelhos, integração regulatória e custo.

O que precisa acontecer para virar serviço comercial

Primeiro, testes precisam demonstrar convivência técnica e desempenho aceitável.

Depois vêm as definições regulatórias de operação permanente, acordos comerciais, compatibilidade de aparelhos, integração com planos e suporte ao cliente.

No caso específico da Vivo e da Starlink, ainda falta a peça mais simples de todas. As próprias empresas anunciarem o que pretendem vender.

Até lá, o cenário é de testes e negociação. A tecnologia é real. O produto comercial brasileiro ainda não.

LEITURA INFOALFA

A conectividade via satélite costuma ser apresentada como concorrente da infraestrutura terrestre. O D2D sugere uma relação mais interessante. Satélites podem funcionar justamente como extensão da rede móvel nos lugares onde construir e manter torres é caro, difícil ou temporariamente impossível. Isso não elimina fibra, torres ou 5G. Pelo contrário. A própria conexão satelital precisa conversar com a infraestrutura das operadoras para entregar o serviço. Para um país com território continental como o Brasil, a mudança relevante pode não ser conseguir velocidades impressionantes pelo satélite. Pode ser algo muito mais básico: um celular continuar conectado depois que a última torre ficou para trás.