O Brasil aparece entre os países com maiores reservas conhecidas de terras raras do mundo. Ainda assim, continua fortemente dependente do exterior para obter alguns dos produtos mais valiosos fabricados a partir desses mesmos elementos, especialmente ímãs permanentes de alto desempenho. Não existe contradição. Entre uma jazida e um motor elétrico há uma cadeia industrial que passa por concentração, separação química, refino, produção de metais, ligas, pós magnéticos e fabricação de ímãs. A nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em 16 de setembro, reconhece justamente esse problema ao colocar beneficiamento, transformação e agregação de valor entre seus objetivos. A questão agora é transformar reserva mineral em capacidade industrial.

Resumo Infoalfa

Dados consolidados pela ANM colocam o Brasil entre os maiores detentores de reservas de terras raras, mas a produção nacional permanece pequena diante desse potencial. A dependência aumenta nas etapas posteriores. A própria ANM aponta que a China responde por aproximadamente 85% a 90% do refino mundial de terras raras e por cerca de 90% da produção de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro. O Brasil possui iniciativas para desenvolver separação, refino e fabricação de ímãs, incluindo projetos em Lagoa Santa, Minas Gerais, mas parte importante dessa capacidade ainda está em escala de pesquisa, demonstração ou desenvolvimento. Ter o mineral é apenas o primeiro elo.

Ter terras raras não significa ter tecnologia

A frase "o Brasil possui grandes reservas de terras raras" é verdadeira e, ao mesmo tempo, insuficiente para explicar a posição do país nessa indústria.

Reserva mineral descreve material conhecido no subsolo que atende critérios geológicos, técnicos e econômicos dentro de determinada metodologia.

Ela não informa se o país possui fábricas capazes de transformar aquele material em componentes de alta tecnologia.

Uma jazida pode estar dentro do território brasileiro enquanto praticamente todo o valor industrial posterior é produzido no exterior.

É justamente essa diferença que precisa ser observada quando terras raras são apresentadas como sinônimo automático de autonomia tecnológica.

O Brasil possui potencial geológico enorme

O Sumário Mineral Brasileiro da Agência Nacional de Mineração registrou 11,4 milhões de toneladas de reservas brasileiras de elementos de terras raras em dados referentes a 2024, colocando o país entre os maiores detentores mundiais naquele levantamento.

Estimativas posteriores podem variar conforme revisão de recursos, metodologia e novas informações geológicas. É por isso que afirmações como "segunda maior reserva mundial" precisam sempre vir acompanhadas do ano e da fonte.

O ponto estrutural, porém, permanece. O Brasil possui depósitos expressivos em diferentes regiões e potencial para ampliar a produção.

A produção efetiva ainda é muito menor do que o tamanho das reservas sugeriria.

Reserva, recurso e produção são coisas diferentes

Um recurso mineral representa uma concentração conhecida ou estimada com potencial de aproveitamento. Reserva exige nível adicional de conhecimento e condições que sustentem sua extração econômica dentro dos critérios utilizados.

Produção é outro passo.

Uma reserva pode permanecer décadas no subsolo. Para transformá-la em produção são necessários estudos, licenciamento, investimento, infraestrutura, equipamentos e mercado.

Mesmo depois da mineração começar, ainda existe outra diferença decisiva: produzir concentrado mineral não é produzir terras raras individuais prontas para aplicações industriais.

O minério precisa atravessar uma cadeia longa

Jazida → mineração → concentrado → separação → óxidos individuais → metais → ligas → pós magnéticos → ímã permanente → motor ou equipamento

Cada seta representa conhecimento, equipamentos, instalações industriais, controle de qualidade, reagentes, energia e pessoas qualificadas.

É nesse caminho que a ideia de "possuir o mineral" começa a perder força como medida de autonomia.

Um país pode extrair minério e exportá-lo. Outro pode importar esse material, separar os elementos, produzir ligas, fabricar o ímã e vender de volta um componente com valor muito maior.

O que são terras raras

Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos. O grupo inclui os 15 lantanídeos, além de escândio e ítrio.

Apesar do nome, vários desses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre. O problema está em encontrá-los em concentrações economicamente aproveitáveis e, principalmente, separá-los.

Suas propriedades magnéticas, ópticas e químicas permitem aplicações em eletrônicos, equipamentos médicos, catalisadores, turbinas eólicas, veículos elétricos, robótica, armazenamento de dados e sistemas aeroespaciais.

Para ímãs permanentes de alto desempenho, elementos como neodímio e praseodímio são especialmente importantes. Disprósio e térbio podem ser utilizados para melhorar características de determinados ímãs, especialmente em condições de temperatura elevada.

Separar terras raras é uma das etapas mais difíceis

O desafio químico aparece porque os elementos de terras raras possuem propriedades muito semelhantes.

Depois que o minério é extraído e beneficiado, é necessário separar elementos individuais com elevado grau de pureza.

Isso pode exigir longas sequências de operações químicas, grande controle de processo e instalações especializadas.

O número de etapas aumenta custo e complexidade. Também cria desafios ambientais relacionados a reagentes, água, efluentes e rejeitos.

Alguns depósitos podem ainda estar associados a tório ou urânio, exigindo controles específicos. Isso não significa que toda jazida de terras raras seja altamente radioativa. A característica depende da geologia de cada depósito.

A China domina exatamente o meio da cadeia

É aqui que a concentração internacional fica mais evidente.

Dados compilados pela Agência Nacional de Mineração a partir de referências internacionais indicam que a China responde por aproximadamente 60% da mineração mundial de terras raras, mas sua participação cresce muito nas etapas posteriores.

No refino e processamento, a fatia é estimada em aproximadamente 85% a 90%.

Na produção de ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro, os NdFeB, a participação chinesa fica em torno de 90%.

Ou seja, o domínio aumenta justamente conforme a cadeia se aproxima do produto tecnológico.

É no refino e nos ímãs que grande parte do valor aparece

Mineração continua sendo indispensável. Sem matéria-prima, nenhuma etapa posterior existe.

Mas um concentrado contendo diferentes terras raras ainda está distante de um ímã com composição, microestrutura, geometria e propriedades magnéticas controladas.

Depois da separação dos óxidos individuais, ainda é necessário produzir metais, preparar ligas, controlar composição, fabricar pós magnéticos, conformar o material e realizar tratamentos que determinam o desempenho final.

É uma cadeia de química e metalurgia avançada.

Essa complexidade ajuda a explicar por que um país pode possuir grandes reservas e continuar importando componentes feitos a partir delas.

Por que a China construiu uma posição tão difícil de reproduzir

O domínio chinês não nasceu apenas da existência de jazidas.

Durante décadas, o país desenvolveu capacidade de mineração, separação, refino, metalurgia, fabricação de ímãs e indústrias consumidoras.

Escala também importa.

Uma planta industrial precisa operar com volume suficiente para diluir custos. Fabricantes de ímãs precisam de compradores. Fabricantes de motores precisam de fornecimento previsível. Projetos de mineração precisam de contratos capazes de justificar investimentos de longo prazo.

Quando todos esses elos existem no mesmo ecossistema industrial, cada um ajuda a sustentar o outro.

Por que o Brasil importa tecnologia feita com minerais que possui

A própria ANM resume o problema brasileiro de forma direta. O país possui potencial geológico relevante, produção ainda limitada e forte dependência externa em ímãs permanentes e aplicações tecnológicas.

Isso significa que aumentar a mineração resolve apenas parte da dependência.

Se o concentrado sair do Brasil e as etapas seguintes forem realizadas no exterior, o país continuará dependendo da importação dos componentes necessários para motores, geradores e equipamentos.

Autonomia industrial exige escolher quais elos fazem sentido econômico e estratégico desenvolver internamente.

Lagoa Santa tenta preencher parte desse vazio

Minas Gerais possui uma das iniciativas brasileiras voltadas justamente aos elos posteriores da cadeia.

Em Lagoa Santa, o CIT SENAI ITR mantém estrutura de pesquisa e desenvolvimento relacionada à separação e refino de terras raras e à fabricação de ímãs permanentes.

Em maio de 2026, o Ministério de Minas e Energia visitou o projeto MagBras, iniciativa voltada ao desenvolvimento de tecnologia nacional para produção de ímãs de terras raras.

Esse tipo de estrutura é importante porque permite desenvolver conhecimento que não aparece simplesmente quando uma mina começa a operar.

Escala piloto e indústria comercial não são a mesma coisa

Conseguir produzir um material em laboratório ou numa instalação piloto é um passo importante. Produzir milhares de toneladas com qualidade repetível, custo competitivo e entrega previsível é outro desafio.

A passagem entre essas etapas costuma ser chamada de vale da morte tecnológico.

É onde tecnologias tecnicamente viáveis podem fracassar economicamente.

Por isso, iniciativas como MagBras precisam ser avaliadas também por sua capacidade de evoluir para escala industrial e criar conexão com compradores reais.

Domínio tecnológico não se mede apenas por possuir uma máquina experimental. Precisa sobreviver ao mercado.

A nova política nacional tenta aumentar a agregação de valor

Em 16 de setembro de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.506, que instituiu a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

A legislação cria uma estrutura nacional para o tema e estabelece como diretriz o adensamento das cadeias produtivas.

O texto busca estimular pesquisa mineral, lavra, beneficiamento, transformação, industrialização e mineração urbana, além de instrumentos de financiamento, inovação e formação profissional.

Na mesma data, o Decreto nº 13.118 regulamentou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, o CIMCE.

A escolha do nome do conselho já indica a mudança de foco. O objetivo declarado não é apenas retirar minerais do solo, mas discutir industrialização.

Uma lei não constrói uma planta de separação

A nova política cria instrumentos. Não entrega automaticamente capacidade industrial.

Uma planta de separação exige projeto, tecnologia, capital, licenciamento, equipamentos e compradores.

Uma fábrica de metais e ligas exige outro conjunto de competências. Uma linha de ímãs permanentes acrescenta novos processos e padrões de qualidade.

Cada etapa precisa encontrar escala econômica.

Por isso, o sucesso da política não poderá ser medido apenas pelo número de projetos anunciados ou pelo volume de recursos destinados ao setor.

Será necessário observar quais etapas da cadeia realmente passam a operar comercialmente no Brasil.

Capital é apenas uma das peças

Mineração e transformação mineral exigem investimentos elevados e prazos longos.

Financiamento reduz uma barreira, mas não substitui tecnologia.

Também são necessários químicos, engenheiros de minas, metalurgistas, especialistas em materiais, técnicos de processo e profissionais capazes de operar instalações complexas.

A ANM inclui formação de pessoal e financiamento à pesquisa mineral entre os gargalos relevantes para o desenvolvimento do setor.

Know-how industrial acumulado é difícil de comprar pronto porque parte importante dele surge de anos de operação, erros e aperfeiçoamentos.

Clientes precisam existir antes da fábrica

Outro elo menos evidente está no fim da cadeia.

Quem comprará os ímãs?

Uma fábrica precisa de demanda previsível para justificar investimento. Motores elétricos, aerogeradores, máquinas industriais, equipamentos eletrônicos e outras aplicações podem formar esse mercado.

Um estudo conduzido para o MME destacou justamente a importância da demanda brasileira por elementos magnéticos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio para sustentar possíveis cadeias industriais domésticas.

Contratos de longo prazo podem ser tão importantes quanto a própria jazida porque oferecem previsibilidade para quem precisa investir em instalações.

Competir com a China não é apenas uma questão tecnológica

Mesmo que uma empresa brasileira domine o processo, ainda precisará competir em custo.

Produtores chineses operam com grande escala, cadeias integradas e décadas de experiência.

Uma nova indústria brasileira pode enfrentar custos maiores enquanto aumenta produção e aprende a operar.

Política industrial, financiamento e contratos podem ajudar nessa fase. Mas proteger indefinidamente uma produção incapaz de alcançar eficiência também cria custos para o restante da economia.

O desafio é construir capacidade sem ignorar competitividade.

Questões ambientais não desaparecem com a verticalização

Agregar valor dentro do Brasil pode reduzir dependência externa. Não elimina os impactos físicos e químicos dos processos.

Separação e refino utilizam reagentes, água e energia e geram correntes que precisam ser tratadas adequadamente.

Projetos de mineração também possuem características ambientais diferentes conforme o tipo de depósito.

Uma política de verticalização que simplesmente transfira etapas poluentes para dentro do país sem controle adequado não representa autonomia tecnológica de qualidade.

O desafio é dominar o processo e também seus controles ambientais.

Reciclagem pode virar outro elo da cadeia

Terras raras também podem retornar à cadeia por meio da reciclagem.

Motores, equipamentos eletrônicos e outros produtos contêm materiais que podem ser recuperados ao final da vida útil.

A nova política brasileira inclui mineração urbana entre seus objetivos, reconhecendo resíduos e produtos descartados como possíveis fontes de materiais estratégicos.

Reciclagem não substituirá rapidamente a mineração primária porque a quantidade de equipamentos disponíveis para descarte é limitada pela própria base instalada histórica.

Mas, à medida que veículos elétricos, turbinas e outros sistemas se acumulam na economia, esse fluxo tende a ganhar importância.

O que seria autonomia real em terras raras

Autonomia não precisa signific produzir internamente absolutamente tudo.

Cadeias industriais modernas são internacionais. Equipamentos, materiais e tecnologias circulam entre países.

O ponto é reduzir dependências concentradas em elos cuja interrupção seria difícil de substituir.

Para terras raras, isso significa olhar muito além da mina.

Capacidade de separar elementos, produzir materiais de alta pureza, desenvolver ligas, fabricar ímãs, formar profissionais e manter compradores industriais pode ser mais estratégica do que simplesmente subir algumas posições no ranking mundial de produção mineral.

O Brasil já possui uma parte difícil da equação no subsolo. O desafio agora está em tudo que acontece depois que o minério chega à superfície.

LEITURA INFOALFA

A dependência tecnológica brasileira não começa porque falta mineral. Em alguns casos, começa justamente depois que o mineral sai do solo. Entre uma jazida e um motor elétrico existe uma cadeia de química, metalurgia, equipamentos, patentes, fábricas e pessoas qualificadas. É nesses elos menos visíveis que boa parte do valor e da dependência se concentra. A nova política brasileira reconhece esse problema ao falar em beneficiamento, transformação e industrialização. O teste real virá depois. Se o país continuar exportando matéria-prima e importando o ímã pronto, a reserva estará no Brasil. A tecnologia continuará em outro lugar.

Fontes consultadas

Agência Nacional de Mineração — Minerais críticos, terras raras e dependência brasileira

ANM — Participação chinesa na mineração, refino e fabricação de materiais estratégicos

ANM — Sumário Mineral Brasileiro 2025

Ministério de Minas e Energia — Projeto MagBras em Lagoa Santa

IPEN — Gargalos tecnológicos de separação, refino e fabricação de ímãs

Presidência da República — Lei nº 15.506/2026

Senado Federal — Decreto nº 13.118/2026