O INPE iniciou em setembro de 2026 a operação oficial do MONAN, Modelo para Previsões de Oceano, Terra e Atmosfera, executado no supercomputador Jaci. O sistema trabalha com resolução de aproximadamente 10 quilômetros e produz previsões de tempo com horizonte de até 11 dias. Mais capacidade computacional permite representar a atmosfera com mais detalhes, mas não transforma previsão em certeza. O ganho está em produzir informações melhores e mais cedo para decisões em Defesa Civil, agricultura, energia e gestão de riscos.
A estreia ocorre num momento importante. O Painel El Niño 2026-2027 informou em setembro probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro, outubro e novembro. Isso não significa que o supercomputador Jaci tenha “previsto sozinho” o fenômeno nem que seja possível antecipar o tempo exato de cada cidade durante todo o verão.
Previsão do tempo, previsão climática sazonal e monitoramento do El Niño são problemas relacionados, mas diferentes.
Resumo Infoalfa
MONAN: novo modelo operacional do INPE para previsão de oceano, terra e atmosfera.
Resolução: aproximadamente 10 km.
Horizonte: previsões de tempo de até 11 dias.
El Niño: o boletim oficial de agosto aponta probabilidade superior a 90% de evento muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro.
Limite: maior capacidade computacional reduz limitações, mas não elimina incerteza atmosférica.
Por que previsão do tempo precisa de supercomputador
A atmosfera não é prevista olhando apenas imagens de nuvens. Modelos numéricos resolvem equações que representam movimento do ar, temperatura, pressão, umidade, radiação e interação com superfície e oceano.
Para realizar isso, o planeta é dividido virtualmente em uma grade. Cada ponto possui variáveis que precisam ser atualizadas repetidamente conforme o modelo avança no tempo.
Quanto menor a grade e maior a quantidade de processos representados, mais cálculos são necessários. É aí que entra a supercomputação.
Por que 10 quilômetros fazem diferença
Resolução de 10 km significa, de maneira simplificada, representar a atmosfera em células menores do que modelos globais mais grosseiros.
Isso permite descrever melhor relevo, circulação regional e determinados sistemas meteorológicos. Ainda assim, fenômenos menores que a grade não aparecem diretamente e precisam ser representados por parametrizações.
Mais resolução não elimina todos os erros. Apenas permite que o modelo trabalhe com uma representação mais detalhada do sistema.
Antes de calcular o futuro é preciso reconstruir o presente
Um modelo precisa começar de algum lugar. Para isso, centros meteorológicos combinam observações de estações, satélites, radares, radiossondas, boias e outras fontes.
Esse processo tenta construir a melhor estimativa possível do estado atual da atmosfera.
O problema é que nunca medimos cada ponto do planeta perfeitamente. Pequenas diferenças nas condições iniciais podem crescer com o tempo, uma característica conhecida dos sistemas caóticos.
Por que a previsão perde precisão com o tempo
Uma previsão para amanhã parte de condições iniciais relativamente próximas do presente. Conforme o horizonte aumenta, erros pequenos acumulam e diferentes evoluções possíveis começam a se separar.
É por isso que previsões de vários dias são frequentemente apresentadas em termos probabilísticos. Centros podem executar conjuntos de simulações com pequenas diferenças iniciais e observar quanto os resultados convergem ou divergem.
Probabilidade não é sinal de que a ciência falhou. É uma maneira mais correta de representar aquilo que o sistema permite saber.
El Niño exige outro tipo de previsão
El Niño envolve interação entre oceano e atmosfera no Pacífico tropical. Temperatura da superfície do mar, ventos, pressão e convecção fazem parte do monitoramento.
Previsões sazonais não tentam responder se choverá às 15 horas numa determinada cidade daqui a quatro meses. Elas estimam probabilidades de padrões médios de chuva e temperatura em regiões maiores.
Essa diferença é essencial para interpretar o atual El Niño. Uma probabilidade elevada de evento muito forte não informa antecipadamente cada tempestade, enchente ou período de seca que ocorrerá no Brasil.
O que o cenário atual indica
O boletim do Painel El Niño divulgado em setembro indica continuidade e intensificação do fenômeno, com possibilidade de intensidade muito forte durante primavera e verão de 2026.
Para setembro, outubro e novembro, o documento aponta maior probabilidade de chuva acima da média no Sul e em partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Norte, Nordeste e áreas do Brasil Central e Sudeste aparecem com maior probabilidade de chuva abaixo da média.
Isso representa cenário climático regional. Eventos locais ainda dependem das condições meteorológicas que se desenvolvem ao longo das semanas.
Mais processamento não elimina erro
Um supercomputador permite aumentar resolução, executar mais simulações e incorporar modelos mais complexos. Mas três limitações continuam existindo: observações imperfeitas, simplificações inevitáveis do modelo e comportamento caótico do sistema.
Por isso, a evolução da meteorologia não deve ser medida pela promessa de acertar tudo. Deve ser medida pela capacidade de reduzir erro, ampliar antecedência e representar melhor a incerteza.
O que melhora para quem precisa decidir
Defesa Civil pode ganhar antecedência para acompanhar cenários de chuva severa. Agricultura pode planejar operações considerando risco de períodos secos ou excesso de precipitação. O setor elétrico acompanha chuva, temperatura, vazões e demanda. Órgãos de gestão hídrica utilizam previsões na avaliação de reservatórios e secas.
O valor de uma previsão não está apenas em acertar se choverá. Está em permitir que decisões sejam tomadas antes que o risco esteja literalmente sobre a cabeça de quem será atingido.
Supercomputação também é infraestrutura científica
A máquina, sozinha, não produz soberania meteorológica. É necessário manter modelos, software, observações, redes de dados e equipes capazes de desenvolver e interpretar o sistema.
Dependência tecnológica não desaparece apenas com a compra de hardware. Capacidade científica exige continuidade.
O MONAN é relevante justamente porque combina infraestrutura computacional com desenvolvimento de modelagem dentro do sistema brasileiro de previsão.
Um supercomputador não vê o futuro. Ele reduz uma quantidade gigantesca de possibilidades usando física, observações e capacidade de cálculo. A vantagem não está em produzir certeza. Está em produzir uma incerteza muito mais útil para quem precisa decidir antes que o evento aconteça.
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