O Brasil registrou 2.322 acidentes de origem elétrica e 725 mortes em 2025. Os incêndios foram as ocorrências mais numerosas, com 1.304 casos, enquanto os choques apresentaram o quadro mais letal: 646 mortes em 917 registros. Os números mostram um problema que não está restrito a eletricistas ou grandes instalações. Ele aparece em residências, obras, comércios, extensões improvisadas, tomadas sobrecarregadas, equipamentos defeituosos e instalações antigas que continuam recebendo cargas para as quais muitas vezes nunca foram projetadas.

Os dados fazem parte do Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica 2026, da Abracopel, com ano-base 2025. A própria entidade alerta que existe subnotificação. Isso significa que os registros disponíveis não representam necessariamente todo o universo de acidentes elétricos ocorridos no país.

O cenário também expõe uma contradição. O Brasil possui normas técnicas, dispositivos de proteção e conhecimento suficiente para evitar grande parte desses eventos. O problema aparece na distância entre aquilo que deveria existir num projeto elétrico e aquilo que realmente está instalado, conservado e utilizado dentro das edificações.

Resumo Infoalfa

Acidentes em 2025: 2.322 ocorrências de origem elétrica.

Mortes: 725 vítimas.

Incêndios: 1.304 ocorrências e 60 mortes.

Choques: 917 ocorrências e 646 mortes, com letalidade próxima de 70%.

Construção civil: 208 profissionais morreram em acidentes por choque elétrico em 2025.

NR-10: a nova redação foi publicada em maio de 2026 e entra em vigor em 1º de junho de 2027, ressalvado prazo específico previsto para instalações existentes.

725 mortes em um ano não são um problema pequeno

Os acidentes elétricos aparecem em três grandes grupos no levantamento da Abracopel: choques elétricos, incêndios de origem elétrica e descargas atmosféricas.

Em 2025 foram registrados 1.304 incêndios, 917 acidentes por choque e 101 ocorrências relacionadas a descargas atmosféricas. Somados, chegaram a 2.322 acidentes e 725 mortes.

O número total de acidentes apresentou pequena redução em relação a 2024, mas permanece muito acima do início da série histórica. Em 2013, a Abracopel havia registrado 1.038 ocorrências. Parte do crescimento ao longo dos anos pode refletir melhoria na capacidade de identificar e reunir casos, mas a própria série mostra que o problema continua longe de ser residual.

Há ainda uma limitação importante. A Abracopel trabalha com eventos que chegam ao conhecimento público e reconhece que existe subnotificação. Comparações apresentadas pela entidade com bases como o DataSUS indicam que o número real de ocorrências pode ser maior.

Por que os incêndios cresceram

Os incêndios de origem elétrica foram na direção contrária da redução observada nos choques. Passaram de 1.186 registros em 2024 para 1.304 em 2025, aumento próximo de 10%. As mortes cresceram de 50 para 60.

Sobrecarga e curto-circuito aparecem entre os problemas associados a essas ocorrências. Mas a origem pode começar muito antes da fumaça. Cabo subdimensionado, conexão malfeita, mau contato, componente de baixa qualidade e circuito submetido a cargas superiores às previstas podem produzir aquecimento progressivo.

Uma instalação elétrica não precisa falhar imediatamente para estar trabalhando em condição ruim. Esse é justamente um dos problemas. O aquecimento pode acontecer repetidamente até que isolação, tomada ou conexão se deteriorem o suficiente para produzir uma ocorrência grave.

Choques são menos numerosos e muito mais letais

Os acidentes por choque caíram de 1.077 ocorrências em 2024 para 917 em 2025. As mortes também recuaram, de 759 para 646.

Mesmo com a redução, a proporção continua impressionante. Aproximadamente sete em cada dez ocorrências registradas pela Abracopel terminaram em morte.

A gravidade depende de fatores como intensidade da corrente, caminho percorrido pelo corpo, duração do contato e condições ambientais. Água e umidade aumentam o risco porque favorecem a condução elétrica.

É por isso que intervenções improvisadas em circuitos energizados e manipulação de equipamentos elétricos em áreas molhadas não podem ser tratadas como pequenos atalhos domésticos.

Construção civil virou um dos principais pontos críticos

A construção civil merece atenção especial. Segundo dados da Abracopel divulgados pela Cemig, 208 profissionais do setor morreram em acidentes envolvendo choque elétrico em 2025. Em 2024 haviam sido 137 e, em 2023, 64.

Entre 2013 e 2025, a série acumulou 1.173 mortes de profissionais da construção civil. Pedreiros, pintores e ajudantes aparecem entre os grupos expostos.

Parte do risco está na proximidade das obras com redes de distribuição. Vergalhões, escadas, andaimes, calhas e ferramentas compridas podem se aproximar de condutores energizados. Dependendo da tensão e da distância, o acidente nem sempre exige contato direto. Pode ocorrer arco elétrico.

O problema também existe dentro das obras, onde instalações provisórias, ferramentas, extensões e ambientes sujeitos a água aumentam a quantidade de situações que precisam ser controladas.

Dentro de casa o risco costuma parecer normal

Uma das dificuldades da prevenção doméstica é que sinais de problema acabam incorporados à rotina.

O adaptador que fica quente continua sendo utilizado. A tomada escurecida recebe outro aparelho. O disjuntor desarma repetidamente e simplesmente volta a ser ligado. A extensão instalada provisoriamente passa anos atrás do móvel.

O Ministério de Minas e Energia cita entre os riscos domésticos fios danificados, sobrecarga de tomadas, adaptações improvisadas e utilização inadequada de equipamentos em ambientes úmidos.

Nenhum desses sinais deveria ser normalizado. Aquecimento anormal, cheiro de material queimado, faíscas, tomadas escurecidas, ruídos elétricos e desarmes recorrentes justificam interromper o uso do equipamento envolvido e procurar avaliação profissional.

Disjuntor não protege contra tudo

É comum encontrar a ideia de que uma residência está protegida simplesmente porque possui disjuntores no quadro. O problema é que diferentes dispositivos existem para responder a diferentes falhas.

O disjuntor protege principalmente o circuito contra sobrecorrentes, como sobrecargas e curtos-circuitos, dentro das condições para as quais foi especificado. Ele não substitui todos os outros mecanismos de proteção.

Também não adianta aumentar arbitrariamente a corrente nominal do disjuntor para evitar desarmes. O dispositivo precisa ser dimensionado de acordo com os condutores e o circuito. Colocar uma proteção maior sem verificar a instalação pode permitir que os cabos aqueçam além do que deveriam antes que o dispositivo atue.

DR, DPS e aterramento fazem trabalhos diferentes

Proteção Função principal Não substitui
Disjuntor Proteção contra sobrecorrente, sobrecarga e curto-circuito DR, DPS ou aterramento
DR Detecta determinadas correntes de fuga e ajuda a proteger pessoas contra choques Disjuntor ou aterramento
DPS Ajuda a limitar sobretensões transitórias DR ou disjuntor
Aterramento Integra o sistema de proteção e fornece caminhos previstos para correntes em determinadas condições de falha Os dispositivos de proteção

Uma instalação segura depende do conjunto. Tratar qualquer um desses elementos como solução universal é simplificar um sistema em que as proteções precisam trabalhar de maneira coordenada.

A necessidade, localização, dimensionamento e forma de instalação devem seguir o projeto e as normas técnicas aplicáveis. Quadro elétrico não é lugar para tentativa e erro.

Por que tomadas e extensões aquecem

Corrente elétrica passando por uma resistência produz calor. Quando uma conexão está frouxa, um contato é inadequado, um condutor é subdimensionado ou uma extensão recebe carga acima de sua capacidade, a temperatura pode subir.

A situação se torna especialmente crítica com equipamentos de maior potência. Chuveiros, aquecedores, fornos, micro-ondas, fritadeiras elétricas e aparelhos de climatização podem exigir correntes muito maiores que eletrônicos pequenos.

Benjamins, adaptadores e extensões não multiplicam a capacidade elétrica da tomada. Apenas permitem conectar mais cargas ao mesmo ponto. Se a soma ultrapassar aquilo que o circuito e os componentes suportam, o risco aumenta.

Extensão também não deveria virar solução permanente para ausência de tomadas adequadas. Quando uma necessidade provisória se torna rotina, é hora de avaliar a instalação.

A instalação antiga encontra uma casa cada vez mais elétrica

Uma residência construída décadas atrás pode ter sido projetada para um conjunto de cargas muito diferente do atual.

Hoje entram no mesmo imóvel ar-condicionado, forno elétrico, air fryer, cooktop por indução, computadores, equipamentos de rede, sistemas fotovoltaicos, baterias e, em alguns casos, carregadores de veículos elétricos.

Trocar eletrodomésticos sem avaliar a infraestrutura que os alimenta pode apenas deslocar o problema. A tomada nova não aumenta a capacidade do cabo que está dentro da parede.

Equipamentos de grande potência podem exigir circuitos dedicados, condutores adequadamente dimensionados e proteções próprias. Isso precisa ser definido tecnicamente, não pela disponibilidade de um adaptador que permita encaixar o plugue.

Solar, baterias e carro elétrico também mudam a instalação

A eletrificação residencial não ocorre apenas pelo aumento do consumo. Algumas casas agora também produzem e armazenam energia.

Sistemas fotovoltaicos introduzem geração. Baterias acrescentam armazenamento e eletrônica de potência. Carregadores de veículos elétricos podem manter cargas elevadas durante horas.

Essas tecnologias podem ser seguras quando corretamente projetadas e instaladas. O problema aparece quando equipamentos novos são acrescentados a uma infraestrutura sem avaliação de capacidade, proteção e compatibilidade.

Modernizar a casa deveria incluir a pergunta menos empolgante da compra: a instalação elétrica está preparada?

A NR-10 foi atualizada em 2026

No ambiente de trabalho, 2026 trouxe uma mudança regulatória importante. A quinta revisão da Norma Regulamentadora nº 10 foi consolidada pela Portaria MTE nº 737, de 29 de maio.

Segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, a nova redação atualiza e moderniza os requisitos da norma, harmoniza o texto com a atual estrutura de segurança e saúde no trabalho e aperfeiçoa a gestão dos riscos ocupacionais relacionados à eletricidade.

A nova redação entra em vigor em 1º de junho de 2027, ressalvado o prazo específico previsto para instalações elétricas existentes. Até 31 de maio de 2027 permanece indicada como vigente a redação anterior da NR-10.

Há uma distinção importante. A NR-10 é uma norma de segurança e saúde no trabalho envolvendo instalações e serviços em eletricidade. Ela não substitui normas técnicas aplicáveis às instalações prediais, como a ABNT NBR 5410 para instalações elétricas de baixa tensão.

Norma não resolve instalação que ninguém mantém

Publicar uma norma é apenas uma parte da prevenção. A segurança depende de projeto correto, materiais adequados, execução profissional, inspeção e manutenção.

Instalações envelhecem. Conexões podem se degradar. Equipamentos são acrescentados. Reformas modificam circuitos. Proprietários mudam e nem sempre recebem documentação do que existe dentro das paredes.

É justamente por isso que segurança elétrica não termina quando a obra acaba.

A Aneel também mantém um conjunto nacional de dados sobre segurança do trabalho e das instalações das distribuidoras. A base inclui acidentes, fatalidades e indicadores de frequência e gravidade, com granularidade por distribuidora e atualização periódica. É outra fonte para acompanhar uma parte do problema, embora seu escopo seja diferente do levantamento da Abracopel.

Os sinais que justificam chamar um profissional

Sem abrir quadros ou manipular circuitos energizados, alguns sinais podem ser percebidos no uso cotidiano:

• tomadas, plugues ou adaptadores aquecendo de forma anormal

• cheiro de plástico ou isolação queimada

• marcas escuras ou deformação em tomadas e plugues

• disjuntores desarmando repetidamente

• faíscas, estalos ou ruídos anormais

• luzes oscilando sem causa evidente

• choques ou sensação de formigamento ao tocar equipamentos

• extensões e adaptadores sendo utilizados permanentemente para equipamentos de alta potência

Perceber o sinal não significa que o morador deva desmontar a tomada ou abrir o quadro para procurar a falha. Instalações energizadas apresentam riscos que não são visíveis e exigem instrumentos, conhecimento e procedimentos adequados.

Quando existe aquecimento, cheiro de queimado, desarme recorrente ou outro comportamento anormal, a atitude segura é interromper o uso da carga envolvida quando isso puder ser feito sem exposição e solicitar avaliação de profissional qualificado.

LEITURA INFOALFA

A eletricidade se tornou tão comum que boa parte do risco desapareceu da percepção cotidiana. Uma tomada escurecida, um adaptador quente, um disjuntor que desarma repetidamente ou uma extensão escondida atrás de um móvel passam a ser tratados como pequenos incômodos. Muitas vezes são sinais de que a instalação já está trabalhando fora da condição ideal. O problema brasileiro não é falta absoluta de conhecimento técnico. Existem normas, dispositivos de proteção e profissionais capazes de reduzir grande parte desses riscos. A distância está entre aquilo que sabemos que deveria existir e aquilo que realmente está instalado, conservado e utilizado dentro das edificações.