Um novo estudo projeta que as áreas secas poderão ocupar entre 39,31% e 40,28% das terras do planeta no fim deste século, dependendo do cenário de emissões. Isso não significa que 40% das terras atuais vão secar nem que o Brasil inteiro caminhe para se transformar em deserto. As áreas secas já representavam cerca de 38,58% da superfície terrestre sem a Antártida no período de referência de 1994 a 2023. A mudança global líquida parece relativamente pequena, mas pode esconder alterações regionais muito maiores. Partes do Brasil aparecem justamente entre as regiões com tendência relevante de secamento.
Publicado na revista Environmental Research Letters, o trabalho acrescenta um elemento importante às projeções. Os pesquisadores consideraram como o aumento da concentração de dióxido de carbono pode alterar a fisiologia das plantas e reduzir parte da perda de água por transpiração. Ao incluir esse efeito, a expansão global das áreas secas fica menor do que em cálculos que tratam a evapotranspiração potencial sem essa resposta vegetal.
Isso não transforma o estudo em notícia tranquilizadora. O resultado mostra que uma pequena alteração no total global pode coexistir com forte reorganização geográfica entre regiões que ficam mais secas e outras que ficam relativamente mais úmidas.
Resumo Infoalfa
Quanto do planeta já é classificado como área seca? Cerca de 38,58% das terras sem a Antártida no período 1994 a 2023, segundo o estudo.
Quanto poderia ser no fim do século? Entre 39,31% e 40,28% no período 2071 a 2100, dependendo do cenário.
Isso significa que 40% do planeta vai virar deserto? Não. A categoria de áreas secas inclui diferentes classes e não equivale a deserto.
O Brasil aparece no estudo? Sim. Partes do país, especialmente no leste, aparecem entre regiões de risco persistente ou emergente de secamento.
Aridez é igual a seca? Não. Aridez descreve uma característica climática de longo prazo. Seca é um evento ou período anormalmente seco.
Não, 40% das terras não vão virar deserto
A interpretação mais dramática do estudo parte de um erro simples. Se a projeção aponta áreas secas ocupando até 40,28% das terras no fim do século, parece que quase metade do planeta está prestes a secar.
Mas o ponto de partida já é 38,58%.
No cenário superior analisado, a expansão líquida corresponde a aproximadamente 2,37 milhões de quilômetros quadrados em relação ao período de referência. É uma área enorme, mas muito diferente de afirmar que 40% das terras atuais sofrerão uma transformação completa.
Outro erro é transformar a expressão drylands em sinônimo de deserto. A classificação inclui regiões hiperáridas, áridas, semiáridas e subúmidas secas. Algumas sustentam agricultura, cidades e populações numerosas.
O que os pesquisadores chamam de área seca
A classificação não depende apenas de perguntar quanto chove.
Um conceito central é o índice de aridez, que relaciona precipitação com a demanda potencial de água da atmosfera. Duas regiões com a mesma chuva anual podem ter condições hídricas muito diferentes se temperatura, radiação, vento e vegetação alterarem a quantidade de água que poderia retornar à atmosfera.
É por isso que aquecimento pode aumentar pressão sobre o balanço hídrico mesmo quando a precipitação não desaparece.
Aridez também descreve uma condição de longo prazo. Não deve ser confundida com uma seca de alguns meses ou anos.
O que muda até 2100
Os pesquisadores combinaram dados históricos e projeções climáticas para estimar como as zonas secas podem se reorganizar.
No cenário de menor emissão considerado, a participação projetada fica próxima de 39,31%. No cenário mais elevado, chega a aproximadamente 40,28%.
A diferença global parece pequena quando observada apenas em pontos percentuais. Geograficamente, porém, milhões de quilômetros quadrados podem mudar de classificação.
Além disso, ganhos de umidade em determinada região podem compensar estatisticamente perdas em outra. O número global líquido esconde justamente a informação que mais interessa a agricultores, cidades e gestores de reservatórios, onde a mudança acontece.
Onde o Brasil aparece no mapa
O estudo identifica o Brasil entre os países com mudanças regionais importantes, com áreas orientais aparecendo entre pontos de secamento persistente ou emergente.
Isso não autoriza uma frase genérica como “o Brasil ficará mais seco”. O território brasileiro atravessa diferentes regimes climáticos, biomas e padrões de precipitação. Mudanças projetadas para uma região não podem ser automaticamente transferidas para outra.
A informação relevante é que partes do país podem enfrentar redução da margem hídrica em um cenário no qual agricultura, geração elétrica, abastecimento urbano e ecossistemas já disputam água em períodos críticos.
Plantas complicam a previsão
Uma das contribuições mais interessantes do estudo está na forma como trata o dióxido de carbono.
Plantas absorvem CO₂ através de pequenas estruturas nas folhas chamadas estômatos. Quando a concentração de CO₂ atmosférico aumenta, determinadas plantas conseguem captar o carbono necessário mantendo esses poros menos abertos durante parte do tempo.
Isso pode reduzir a perda de água por transpiração.
Ao incorporar esse efeito fisiológico ao cálculo da evapotranspiração potencial, os pesquisadores encontraram expansão menor das áreas secas do que em estimativas que ignoravam essa resposta.
No cenário de altas emissões, por exemplo, desconsiderar o efeito das plantas elevaria a estimativa de 40,28% para aproximadamente 42,11% das terras.
Isso não significa que mais CO₂ seja uma solução para escassez hídrica. O mesmo aquecimento que acompanha altas concentrações altera temperatura, extremos climáticos, demanda atmosférica e diversos processos ecológicos.
Aridez não é a mesma coisa que seca
Uma região árida possui uma característica climática persistente. Uma seca representa um desvio temporário em relação às condições esperadas daquele lugar.
O Saara é árido mesmo sem estar permanentemente em um evento de seca. Uma região normalmente úmida pode enfrentar uma seca severa sem se transformar em área árida.
Desertificação é outro conceito. Envolve degradação da terra em áreas secas e pode resultar da combinação de clima e atividades humanas, como manejo inadequado do solo e da vegetação.
Falta de água para uma cidade também é diferente. Uma região climaticamente seca pode manter abastecimento confiável se possuir infraestrutura, fontes suficientes e gestão adequada. Uma região relativamente úmida pode enfrentar crise hídrica se demanda, reservatórios e distribuição forem mal dimensionados.
Um mapa climático não determina sozinho o futuro da água
Transformar uma projeção de aridez diretamente em previsão de reservatório seria avançar muito além do que o indicador permite.
Disponibilidade hídrica depende de chuva, temperatura, solo, vegetação, vazão dos rios, águas subterrâneas, barragens, irrigação, retirada urbana, atividade industrial e decisões de gestão.
Mudanças no uso da terra também podem alterar o ciclo local da água. Uma bacia hidrográfica não responde apenas à quantidade de chuva que cai sobre ela.
A projeção deve funcionar como sinal de planejamento. Regiões que aparecem repetidamente em cenários de secamento possuem motivo adicional para melhorar eficiência, monitoramento, armazenamento, conservação do solo e capacidade de adaptação.
Uma projeção climática não é uma fotografia do ano 2100. É uma tentativa de entender como determinadas variáveis podem se reorganizar sob diferentes condições. O dado mais útil do estudo não é imaginar 40% do planeta coberto de areia. É perceber que uma mudança global relativamente pequena na área total pode esconder transformações regionais muito maiores exatamente onde pessoas produzem comida, dependem de reservatórios e já convivem com limitação hídrica.
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