Os rios do planeta atravessaram em 2025 um dos anos mais secos das últimas três décadas, enquanto geleiras continuaram perdendo massa e o armazenamento de água em terra manteve uma tendência de queda. Mas o alerta mais importante da Organização Meteorológica Mundial não é simplesmente que existe menos água. O ciclo hidrológico está ficando mais irregular, alternando escassez e excesso de maneira que aumenta a dificuldade de administrar abastecimento, agricultura, energia e prevenção de desastres.

Resumo Infoalfa

O relatório State of Global Water Resources 2025, da OMM, aponta que 2025 esteve entre os anos mais secos em 35 anos para a vazão dos rios. Os últimos sete anos também registraram a menor proporção de rios com vazões consideradas normais desde 1991. O armazenamento terrestre de água apresenta tendência de queda na última década e as geleiras perderam massa pelo quarto ano consecutivo em todas as regiões monitoradas. O quadro não significa simplesmente uma trajetória uniforme de seca. A OMM descreve um ciclo cada vez mais errático, no qual escassez e excesso podem aparecer em diferentes lugares e momentos.

O ciclo da água não está simplesmente secando

A ideia de um planeta que apenas recebe menos chuva é uma simplificação ruim do problema.

O ciclo da água conecta oceanos, atmosfera, solo, vegetação, rios, lagos, reservatórios, aquíferos, neve e geleiras. A água evapora, retorna como precipitação, infiltra no solo, alimenta sistemas subterrâneos ou escoa pela superfície até chegar novamente aos rios e oceanos.

Mudar temperatura e precipitação altera diferentes partes desse circuito. Uma região pode receber menos chuva durante meses e depois enfrentar precipitação extrema em poucos dias. Outra pode registrar chuva aparentemente próxima da média anual, mas distribuída de forma muito diferente ao longo do ano.

É essa irregularidade que torna a gestão mais difícil. O total anual sozinho não informa quando a água chegou, com que intensidade, quanto infiltrou no solo ou quanto escoou rapidamente provocando enchentes.

2025 foi um dos anos mais secos para os rios

O State of Global Water Resources 2025, divulgado pela Organização Meteorológica Mundial, coloca o ano entre os mais secos em 35 anos quando considerada a vazão global dos rios.

Vazão é a quantidade de água que atravessa determinada seção de um rio em certo intervalo de tempo. Ela responde à chuva, à neve, ao degelo, às características do solo, ao armazenamento subterrâneo e também às intervenções humanas na bacia.

Quando a OMM compara determinada vazão com condições consideradas normais, utiliza referências históricas para identificar se aquele comportamento ficou abaixo, próximo ou acima do esperado.

O dado mais preocupante não aparece isoladamente em 2025. Segundo a organização, os últimos sete anos tiveram a menor ocorrência de vazões classificadas como normais desde 1991.

O problema é a oscilação entre pouco e muito

Um rio abaixo da média é fácil de associar a uma crise hídrica. Um rio muito acima da média também representa desvio do comportamento normal, só que no sentido oposto.

Esse detalhe explica a aparente contradição de um planeta que enfrenta secas severas e enchentes devastadoras ao mesmo tempo.

As duas situações podem ser manifestações de um sistema hidrológico mais extremo.

Para cidades, agricultura e infraestrutura, estabilidade tem valor. Reservatórios, pontes, drenagem, lavouras e sistemas de abastecimento são planejados a partir de faixas de comportamento esperadas. Quanto maior a frequência de condições fora dessas faixas, maior a pressão sobre estruturas construídas com base no passado.

Água subterrânea, solo e gelo também entram na conta

Rios são apenas a parte mais visível do sistema.

O armazenamento terrestre de água inclui um conjunto muito maior de reservas, como umidade do solo, águas subterrâneas, lagos, reservatórios, neve e gelo. Esses componentes funcionam como estoques capazes de sustentar o sistema entre períodos de precipitação.

A OMM aponta tendência de redução desse armazenamento terrestre ao longo da última década.

Isso merece atenção porque um sistema pode continuar funcionando durante algum tempo mesmo com chuvas ruins se possuir reservas acumuladas. Quando essas reservas também diminuem, a margem para atravessar períodos secos fica menor.

As geleiras perderam massa pelo quarto ano consecutivo

O relatório também registra perda generalizada de massa das geleiras em todas as regiões pelo quarto ano consecutivo.

Geleiras não são apenas indicadores visuais do aquecimento. Em várias bacias, funcionam como reservatórios naturais que armazenam água na forma de gelo e liberam parte dela ao longo das estações.

Em determinadas fases, derretimento acelerado pode até aumentar temporariamente a quantidade de água disponível rio abaixo. O problema aparece quando o estoque de gelo diminui suficientemente. O fluxo adicional não pode continuar indefinidamente porque a reserva que o sustentava está desaparecendo.

Isso cria um efeito de duas etapas. Primeiro pode existir mais contribuição do degelo. Depois, com uma geleira menor, diminui a quantidade de água que poderá ser liberada no futuro.

Mais calor altera evaporação e precipitação

Uma atmosfera mais quente consegue conter mais vapor d'água. Temperaturas maiores também intensificam evaporação em superfícies disponíveis e aumentam a demanda de água da vegetação e do solo.

Isso não produz o mesmo resultado em todos os lugares.

Algumas regiões podem experimentar secagem mais intensa. Outras podem receber episódios de precipitação mais forte. Mudanças na circulação atmosférica redistribuem onde e quando essa água retorna à superfície.

Por isso, aquecimento global não deve ser traduzido simplesmente como "menos chuva". O efeito relevante é uma alteração do sistema que transporta, armazena e devolve água ao planeta.

Chuva mais forte não significa necessariamente mais água disponível

Imagine duas situações em que uma cidade recebe a mesma quantidade total de chuva.

Na primeira, a precipitação ocorre de maneira moderada durante várias semanas. Parte da água consegue infiltrar, o solo absorve umidade e rios recebem contribuição progressiva.

Na segunda, grande parte daquele volume cai em poucas horas. A capacidade de infiltração pode ser superada. A água corre pela superfície, pressiona sistemas de drenagem, eleva rios rapidamente e pode produzir inundação.

O volume total pode ser semelhante. O resultado para armazenamento e segurança urbana não é.

Esse é um dos motivos pelos quais extremos de chuva não resolvem automaticamente períodos de escassez.

Onde entra o El Niño

El Niño é uma oscilação natural do sistema oceano-atmosfera do Pacífico tropical capaz de reorganizar padrões de circulação, chuva e temperatura em diferentes regiões.

Quando está ativo, pode aumentar a probabilidade de determinados extremos em algumas partes do planeta e reduzir chuva em outras.

Isso faz do fenômeno uma variável importante para planejamento hídrico, agrícola e energético. Previsões sazonais conseguem oferecer informação sobre mudanças de probabilidade meses antes de determinados impactos.

Mas El Niño não deve ser usado para explicar sozinho a tendência observada pela OMM.

El Niño não explica uma tendência de muitos anos

ENSO varia naturalmente entre fases de El Niño, La Niña e neutralidade. Já as alterações de longo prazo em temperatura global, armazenamento terrestre de água e geleiras operam em escalas diferentes.

Os fenômenos podem interagir.

Um El Niño forte atuando sobre oceanos e atmosfera mais quentes pode produzir efeitos diferentes daqueles observados em episódios semelhantes muitas décadas atrás. Ao mesmo tempo, o comportamento de uma temporada específica não pode ser atribuído automaticamente à mudança climática sem análise adequada.

Para planejamento, a separação é importante. Variabilidade natural ajuda a explicar oscilações de curto e médio prazo. A mudança climática altera o pano de fundo sobre o qual essas oscilações acontecem. Uso humano da água acrescenta outra camada ao problema.

Uso humano também modifica o ciclo disponível para nós

Captação para abastecimento, irrigação, indústria e geração de energia altera a quantidade de água disponível em diferentes pontos das bacias.

Barragens mudam o momento em que parte da vazão é liberada. Bombeamento excessivo pode reduzir estoques subterrâneos. Urbanização impermeabiliza solo e acelera escoamento. Desmatamento e mudanças de uso do território alteram infiltração e evapotranspiração.

Por isso, uma crise hídrica local não pode ser explicada automaticamente por uma única causa global.

Clima, infraestrutura, ocupação territorial, gestão e demanda interagem.

O impacto chega à agricultura e à energia

A agricultura depende não apenas da quantidade anual de chuva, mas do momento em que ela ocorre. Uma precipitação intensa depois de uma fase crítica de desenvolvimento da cultura pode não compensar a água que faltou semanas antes.

A irrigação reduz parte dessa vulnerabilidade, mas transfere a pressão para rios, reservatórios e aquíferos.

No setor elétrico, países com participação importante de hidrelétricas precisam administrar reservatórios considerando demanda, vazões futuras e outras fontes de geração. Períodos prolongados de afluências baixas reduzem a flexibilidade do sistema.

Já cheias extremas podem ameaçar infraestrutura, interromper transmissão, danificar estradas e afetar outras instalações essenciais.

O Brasil precisa planejar para extremos opostos

A dimensão continental brasileira impede tratar o país como uma única unidade hidrológica.

A Amazônia pode atravessar episódios severos de seca e níveis extremamente baixos dos rios enquanto outras regiões enfrentam chuvas destrutivas. O Nordeste possui longa experiência de convivência com variabilidade hídrica. O Sul mostrou repetidamente como precipitações intensas podem transformar rios em grandes ameaças urbanas.

Esses problemas também podem ocorrer em anos próximos ou dentro de uma mesma temporada em regiões diferentes.

Planejamento precisa considerar justamente essa diversidade. Segurança hídrica não significa apenas construir capacidade para armazenar água durante a seca. Significa também proteger sistemas de captação, tratamento, distribuição e energia contra excesso de água.

Mais dados ajudam, mas não eliminam a incerteza

Monitoramento de rios, chuva, solo, águas subterrâneas, reservatórios e atmosfera melhora muito a capacidade de antecipar problemas.

Modelos hidrológicos e climáticos transformam essas observações em cenários. Previsões meteorológicas ajudam no horizonte de dias. Previsões sazonais trabalham com probabilidades para períodos maiores. Projeções climáticas analisam mudanças possíveis em décadas.

Cada ferramenta responde a uma pergunta diferente.

A própria OMM destaca que a disponibilidade de dados melhorou, mas ainda existem lacunas, inclusive em áreas fortemente afetadas por desastres relacionados à água.

Mais informação reduz parte da incerteza. Não elimina a necessidade de preparar infraestrutura para situações que não podem ser previstas com exatidão.

LEITURA INFOALFA

Planejar água sempre exigiu lidar com variação. O problema aparece quando aquilo que era considerado exceção começa a aparecer com mais frequência e intensidade. Um reservatório pode sofrer tanto com anos secos quanto com chuvas concentradas demais em poucos dias. Uma cidade pode enfrentar escassez e enchente na mesma década, ou até no mesmo ano. A dificuldade não está apenas em ter mais ou menos água. Está em ter menos margem para errar quando o comportamento da água se torna mais extremo.

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Fontes consultadas

Organização Meteorológica Mundial — State of Global Water Resources 2025

Organização Meteorológica Mundial — Tendências recentes dos recursos hídricos globais