A segunda edição da FenaBio, realizada em 12 e 13 de agosto de 2026 dentro da Fenasucro & Agrocana, em Sertãozinho, colocou na mesma mesa assuntos que normalmente aparecem separados: etanol, biogás, bioeletricidade, combustível sustentável de aviação, mobilidade, financiamento, geopolítica e novos mercados. A conexão entre eles é menos ambiental do que parece à primeira vista. O que está em disputa é a capacidade de o Brasil transformar biomassa, agricultura, resíduos e tecnologia industrial em segurança energética, atividade econômica e menor exposição a combustíveis e cadeias externas.

Esse recorte é importante porque bioenergia costuma ser apresentada como sinônimo de alternativa verde aos combustíveis fósseis. Ela pode cumprir essa função, mas o assunto é maior. Um país precisa transportar alimentos, movimentar caminhões, operar máquinas agrícolas, abastecer indústrias, manter aviões voando e garantir energia mesmo quando petróleo, gás, câmbio ou cadeias internacionais entram em turbulência. Diversificar as fontes disponíveis é parte da segurança nacional, não apenas de uma agenda ambiental.

O Brasil começa essa discussão em posição incomum. Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, da Empresa de Pesquisa Energética, as fontes renováveis responderam por 49,5% da matriz energética brasileira em 2025. Biomassa da cana, lenha e carvão vegetal, biodiesel, outras biomassas e diferentes fontes renováveis têm presença que muitos países ainda tentam construir. A vantagem existe. O risco é confundir vantagem de partida com liderança garantida.

Resumo Infoalfa

  • O debate: a FenaBio 2026 reuniu discussões sobre biogás, SAF, etanol, bioeletricidade, mobilidade, geopolítica, financiamento e novos mercados.
  • O ponto estratégico: bioenergia pode diversificar o abastecimento e reduzir a exposição de transporte, agro e indústria a combustíveis fósseis e choques externos.
  • A vantagem brasileira: o país já possui ampla cadeia de biomassa, experiência industrial com etanol e biodiesel e uma matriz energética com participação renovável elevada.
  • O limite: potencial agrícola não substitui escala industrial, logística, certificação, financiamento, regras estáveis e controle ambiental.

A FenaBio mostrou uma cadeia que ficou maior que o etanol

A programação oficial da FenaBio 2026 foi construída justamente para mostrar essa ampliação. O evento reuniu representantes da indústria, pesquisa, mercado financeiro e setor produtivo, com painéis sobre biogás, SAF, bioeletricidade, relação entre etanol de cana e de milho, mobilidade elétrica e híbrida, combustíveis para navegação, geopolítica e financiamento de projetos de baixa emissão.

Entre os participantes anunciados estavam executivos e especialistas ligados a Airbus, Honeywell, Stellantis, BYD, UNICA, Siemens Energy, Copersucar, NovaBio e instituições financeiras. O fato de empresas de aviação, automóveis, energia e finanças aparecerem no mesmo debate diz bastante sobre a transformação do setor. Bioenergia deixou de ser apenas uma conversa entre usina, posto de combustível e produtor de cana.

Hoje existe uma disputa para saber quais moléculas de baixo carbono conseguirão ocupar setores nos quais a eletrificação direta encontra limitações técnicas, econômicas ou de infraestrutura. É aí que entram combustível sustentável de aviação, biometano, diesel verde, etanol avançado, biocombustíveis marítimos e outras rotas.

O evento, evidentemente, é organizado dentro de uma cadeia interessada em expandir esses mercados. Isso exige alguma distância editorial. Quando um setor afirma que possui enorme potencial, a pergunta não deve ser apenas quanto ele poderia produzir. É preciso perguntar a que custo, com qual matéria-prima, utilizando que infraestrutura, sob quais regras e com qual capacidade de competir no mercado real.

Segurança energética não significa apenas energia barata

O termo segurança energética pode soar distante da rotina, mas aparece rapidamente quando algo dá errado. Preço internacional do petróleo dispara, moeda nacional perde valor, uma guerra altera fluxos comerciais, rotas marítimas são interrompidas ou fornecedores reduzem exportações. O combustível que parecia apenas mais um produto passa a afetar frete, alimento, passagem aérea, produção agrícola e inflação.

Um sistema energeticamente seguro precisa combinar disponibilidade, diversidade de fontes, logística, capacidade produtiva e resiliência. Não adianta ter combustível barato no papel se o país depende de poucos fornecedores ou de uma cadeia vulnerável a acontecimentos externos.

Bioenergia oferece uma característica especialmente interessante nesse contexto: boa parte de sua matéria-prima pode ser produzida dentro do próprio território. Cana, milho, resíduos agroindustriais, resíduos urbanos, dejetos animais e outras biomassas podem alimentar diferentes processos industriais. Isso não elimina importações nem torna o Brasil independente de tecnologia, fertilizantes, máquinas ou componentes externos, mas amplia o número de caminhos disponíveis quando o sistema precisa responder a uma crise.

Onde a bioenergia entra na segurança do país

Transporte Etanol, biodiesel, diesel verde, biometano e outros combustíveis podem diversificar as opções para veículos leves e pesados.
Aviação O SAF aparece como uma das principais rotas para reduzir emissões em um setor no qual baterias ainda enfrentam fortes limitações de peso e autonomia.
Agro e indústria Resíduos podem voltar ao sistema na forma de gás, eletricidade ou combustível, reduzindo desperdício e criando receita adicional.
Eletricidade Bioeletricidade pode complementar outras fontes renováveis e aproveitar resíduos de cadeias já existentes, como bagaço e palha.

SAF virou uma das grandes apostas, mas ainda precisa virar escala

A aviação ocupa posição particular na transição energética. Colocar baterias em um automóvel é tecnicamente muito diferente de colocar energia suficiente em um avião de longo curso sem comprometer carga, alcance e viabilidade econômica. Por isso o combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF, ganhou espaço como alternativa capaz de utilizar aeronaves e infraestrutura compatíveis com combustíveis líquidos, desde que atendidas as especificações técnicas e de certificação.

A Lei nº 14.993, de outubro de 2024, conhecida como Lei do Combustível do Futuro, instituiu o Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação, o ProBioQAV. A legislação estabeleceu uma trajetória de redução de emissões para voos domésticos, com início previsto em 2027 e crescimento gradual das metas nos anos seguintes.

O Brasil possui matérias-primas e experiência industrial que podem favorecer diferentes rotas de SAF, e esse potencial explica o interesse de empresas internacionais. Mas transformar cana, óleos, resíduos ou outras fontes em combustível certificado para aviação é muito mais complexo do que dizer que o país tem biomassa disponível.

O produto precisa cumprir especificações rígidas, comprovar desempenho ambiental, atender critérios de rastreabilidade e competir em um mercado no qual Estados Unidos, Europa, Ásia e países produtores de energia também investem pesado. Além disso, SAF ainda tende a ser mais caro do que querosene fóssil convencional. Sem escala, contratos de longo prazo e mecanismos regulatórios previsíveis, a conta não fecha apenas com entusiasmo.

É justamente aí que a segurança energética encontra a política industrial. O Brasil pode optar por fornecer biomassa e insumos para cadeias desenvolvidas em outros lugares ou pode tentar capturar partes mais sofisticadas da produção, engenharia, equipamentos, certificação e tecnologia. São estratégias economicamente muito diferentes.

Cana e milho mostram que o etanol brasileiro também está mudando

O etanol é o exemplo mais maduro de como bioenergia pode ganhar escala no Brasil. Décadas de infraestrutura, motores flex, rede de distribuição e produção agrícola permitiram que o combustível renovável deixasse de ser experiência e se tornasse parte estrutural do mercado.

A expansão do etanol de milho acrescentou uma nova camada à cadeia. Usinas podem utilizar matéria-prima produzida em regiões de grande oferta agrícola, integrar processos e gerar coprodutos destinados, entre outras finalidades, à alimentação animal. Em determinados arranjos industriais, cana e milho ajudam a ampliar períodos de operação e melhorar a utilização de ativos.

Essa expansão não elimina discussões sobre uso do solo, logística, disponibilidade de grãos e sustentabilidade. Também não cria uma disputa simples na qual um combustível precisa exterminar todas as outras tecnologias. A própria programação da FenaBio colocou representantes de veículos elétricos e híbridos flex no mesmo debate.

Essa convivência provavelmente descreve melhor a transição brasileira do que a ideia de uma única solução vencedora. Veículos puramente elétricos podem ser muito eficientes em determinados perfis urbanos. Híbridos podem aproveitar eletrificação e combustível renovável. Etanol continua relevante em uma frota enorme já existente. Transporte pesado apresenta outro conjunto de necessidades. Tentar resolver todas essas realidades com uma única tecnologia é o tipo de simplicidade que funciona melhor em apresentação comercial do que na rua.

Biometano transforma um problema de resíduos em combustível

Entre as rotas de maior interesse estratégico está o biometano. Ele é obtido a partir da purificação do biogás produzido pela decomposição de matéria orgânica. Essa matéria pode vir de aterros, resíduos agroindustriais, vinhaça, dejetos animais, resíduos da indústria de alimentos e outras fontes.

Quando atende às especificações regulatórias, o biometano pode ser utilizado em aplicações semelhantes às do gás natural. Isso abre espaço para consumo industrial, geração de energia, frotas e transporte pesado. Existe ainda uma vantagem territorial importante: o combustível pode ser produzido próximo da origem do resíduo e do próprio consumo.

Em uma região com grande concentração de granjas, confinamentos, usinas ou agroindústrias, por exemplo, resíduos que representavam custo ambiental podem alimentar plantas de biogás e produzir combustível. Caminhões, máquinas ou processos industriais próximos passam a ter uma fonte local de energia.

A ideia é atraente, mas não escapa da física nem da economia. Produção precisa ser regular, o gás necessita purificação, compressão ou liquefação dependendo do uso, veículos precisam ser compatíveis e postos ou estruturas dedicadas precisam existir. Transportar biometano por grandes distâncias também acrescenta custo. A produção distribuída é uma vantagem justamente porque a logística pode se tornar um gargalo quando o desenho do projeto é ruim.

Diesel verde mira justamente onde a eletrificação encontra dificuldade

A Lei do Combustível do Futuro também criou o Programa Nacional de Diesel Verde. Diferentemente do biodiesel tradicional, diesel verde é produzido por processos capazes de gerar hidrocarbonetos renováveis com características próximas às do diesel fóssil, dependendo da rota tecnológica utilizada.

O interesse está principalmente em atividades nas quais densidade energética, autonomia e rapidez de abastecimento têm grande peso. Caminhões de longa distância, mineração, máquinas agrícolas, operações remotas e outros usos pesados não podem ser avaliados apenas pela lógica de um automóvel urbano que volta à garagem todas as noites.

Isso não significa que diesel verde substituirá diesel fóssil em curto prazo. Capacidade produtiva, custo, oferta de matéria-prima e regulação ainda limitam a escala. A legislação cria o caminho para mandatos e expansão do mercado, mas transformar possibilidade legal em bilhões de litros exige plantas industriais, financiamento e compradores.

A geopolítica voltou a lembrar que combustível também é poder

Os últimos anos recolocaram energia no centro da geopolítica. Guerras, sanções, disputas comerciais, ataques a infraestrutura e interrupções de rotas marítimas mostraram que segurança de abastecimento pode se deteriorar rapidamente. Países importadores passaram a buscar não apenas combustíveis de menor emissão, mas fornecedores capazes de entregar volume com previsibilidade.

Essa combinação cria oportunidade para o Brasil. Um país capaz de fornecer etanol, SAF, biometano, biodiesel, diesel verde, bioeletricidade, tecnologia agrícola e conhecimento industrial pode participar de várias cadeias simultaneamente.

Mas existe uma diferença gigantesca entre exportar matéria-prima e controlar tecnologia, propriedade intelectual, equipamentos, certificação, plantas industriais e canais comerciais. O Brasil conhece bem a experiência de possuir recursos estratégicos e capturar apenas uma fração do valor criado com eles.

A bioenergia será realmente estratégica quando parte relevante do conhecimento, da indústria e dos serviços de maior valor também estiver no país. Caso contrário, poderemos comemorar a biomassa brasileira enquanto importamos equipamentos, processos e soluções responsáveis pelas maiores margens da cadeia.

O discurso otimista tem limites bastante concretos

O que separa potencial de liderança real

Escala Produzir muito e continuamente

Mercados como aviação e transporte pesado exigem volumes enormes. Projeto piloto não resolve segurança energética.

Custo Competir além do subsídio

Algumas rotas ainda precisam reduzir custos para disputar mercado sem depender indefinidamente de incentivos elevados.

Certificação Provar origem e emissões

Mercados internacionais exigem critérios de sustentabilidade, rastreabilidade e intensidade de carbono verificáveis.

Logística Levar energia até onde ela é necessária

Produção localizada longe do consumidor precisa de dutos, rodovias, ferrovias, terminais ou estruturas específicas.

Sustentabilidade Biológico não significa impacto zero

Uso do solo, água, fertilizantes, emissões do ciclo de vida e origem da matéria-prima precisam ser considerados.

Regulação Regra previsível atrai indústria

Empreendimentos de longo prazo precisam saber como funcionarão mandatos, certificações e metas antes de comprometer bilhões em capacidade produtiva.

Há também a questão da matéria-prima. Expandir bioenergia sem critérios pode pressionar terra, água e ecossistemas ou criar disputas com outras atividades econômicas. O impacto varia conforme cultura, região, produtividade, aproveitamento de resíduos e tecnologia empregada. Colocar todas as biomassas dentro da mesma embalagem sustentável seria apenas trocar propaganda fóssil por propaganda verde.

Rastreabilidade e análise de ciclo de vida passam a ser centrais justamente porque o valor climático de um combustível não depende apenas do que sai do escapamento. Produção agrícola, fertilizantes, transporte, processamento, mudança de uso da terra e energia empregada na fabricação alteram o resultado final.

O que isso muda para quem não trabalha no setor energético

Segurança energética acaba chegando à vida cotidiana pelo preço. Diesel influencia frete e alimentos. Combustível de aviação influencia passagens e logística aérea. Gás e eletricidade interferem na indústria. Energia rural interfere na produção agrícola. Quando o país amplia opções locais, ele pode reduzir parte da vulnerabilidade a determinados choques externos.

A expansão da bioenergia também pode interiorizar investimentos. Usinas, unidades de biogás, processamento de resíduos e cadeias de fornecedores surgem próximas das matérias-primas. Isso pode criar emprego e renda fora dos grandes centros, embora o resultado dependa de qualificação, estrutura empresarial e capacidade dos municípios de capturar parte do valor.

Para o consumidor, a mudança provavelmente será gradual. Mais etanol, maiores misturas de biocombustíveis, veículos híbridos, novas frotas movidas a gás renovável e combustível sustentável na aviação vão entrando no sistema por etapas. Segurança energética raramente chega em uma grande caixa com laço. Ela é construída por redundância, diversidade e infraestrutura antes da próxima crise.

Leitura Infoalfa

Bioenergia é uma das poucas disputas tecnológicas e energéticas em que o Brasil não precisa começar correndo atrás de todo mundo. O país já tem biomassa, indústria, conhecimento agrícola, mercado interno e décadas de experiência com biocombustíveis. Isso é vantagem estratégica, não garantia de vitória. Potencial não abastece avião, caminhão nem indústria sozinho. Entre a promessa da transição energética e a segurança energética real existe uma parte muito menos fotogênica: planta industrial, certificação, logística, financiamento, regra estável, fiscalização e capacidade de produzir em escala. Se o Brasil desenvolver apenas a matéria-prima e deixar tecnologia, equipamentos e maior valor agregado nas mãos de outros países, teremos encontrado mais uma maneira sofisticada de exportar potencial.

O mérito do debate aberto pela FenaBio está justamente em revelar que a próxima fase da bioenergia será decidida fora da velha discussão sobre escolher entre combustível fóssil e combustível renovável. A disputa envolve aviação, transporte pesado, indústria, resíduos, agro, tecnologia e geopolítica. Segurança energética não nasce de uma fonte milagrosa. Nasce de um país possuir opções e conseguir utilizá-las quando precisa.

Fontes consultadas: FenaBio, Fenasucro & Agrocana, Empresa de Pesquisa Energética, Lei nº 14.993/2024, EPE — Combustível do Futuro, Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis e Agência Nacional de Aviação Civil.